Sobre a necessidade de teologias nas universidades públicas

Sobre a necessidade de teologias nas universidades públicas

Photo by Bernard Hermant on Unsplash


Qualquer pessoa atenta à sociedade pode perceber que há um aumento considerável da busca de novas religiosidades e espiritualidades dentro do movimento contemporâneo. Contrariamente àqueles e àquelas que diziam que a religião teria um fim breve, uma vez que o sujeito moderno seria aquele capaz de uma racionalidade superior trazido pelo conhecimento científico, o que implicaria a não aceitação de algumas questões metafísicas, o que vemos é o crescimento tanto da oferta de instrumentos e locais religiosos, quanto a busca a esses lugares.

Esse movimento, por sua vez, não se dá dentro de somente uma religião. Muito pelo contrário, diversas matrizes religiosas têm sido buscadas e algumas bem antigas sendo reativadas, como é o caso das religiões celtas, ou outras religiões conhecidas como pagãs na antiguidade. Também as de matrizes orientais, principalmente no Ocidente, encontraram um solo fértil, mesmo que muitas vezes usadas somente como meios de “bem viver”, ou ainda dentro de uma linha “coaching”, na qual os princípios propriamente religiosos são muitas vezes esquecidos e se considera somente aquilo que pode tornar o sujeito contemporâneo mais produtivo, de bem com a vida e resiliente em seu trabalho.

Diante desse cenário, o estudo das religiões, bem como das diversas assimilações dessas mesmas religiões pela sociedade se mostra extremamente importante. Nesse sentido, a ciência das religiões cumpre um papel fundamental para a compreensão desses processos e de como essas novas espiritualidades se relacionam com a sociedade. Esse estudo, porém, visando abarcar uma outra dimensão religiosa precisa vir acompanhado do conhecimento teológico, uma vez que toda religiosidade ou espiritualidade, de alguma forma, toca aquilo que se considera para além do humano, transcendente, divino. Em outras palavras, toca o campo das teologias e somente por meio desta conversa entre ciência das religiões e teologia se mostra possível uma visão completa desse fenômeno religioso.

Infelizmente, no Brasil ainda são poucos os cursos de Ciência das Religiões em universidades públicas e, no caso das Teologias, são praticamente inexistentes, restringindo-se a faculdades confessionais ou particulares. Tal situação ao mesmo tempo em que revela a imensa influência positivista que ainda reside nas universidades públicas brasileiras, também mostra o grande preconceito que há com relação ao conhecimento religioso.

A ideia preconceituosa de que a religião é somente uma alienação, ou de que se trata de um tipo de conhecimento que não merece um estudo próprio ainda se mostra muito característico nas universidades públicas brasileiras e não dificilmente se fala desse tema com desdenho, o que é demonstrado pela grande ausência de cursos de graduação e pós-graduação nessas temáticas nas universidades federais do país.

Ao mesmo tempo, nas faculdades teológicas de cunho confessional ainda permanece certa visão de gueto, onde corpo discente e docente são majoritariamente pertencentes à determinada matriz ou doutrina religiosa, evitando assim um ensino teológico que aborde diferentes perspectivas do fenômeno religioso, seja em seu nível social, seja em sua questão de vivência e práticas teológicas.

Nesse cenário, não é de se espantar que movimentos fundamentalistas e de extrema-direita se espalhem pelo país, bem como não é de se admirar que haja diversas pessoas caindo em movimentos de estelionato religioso. A falta de um estudo sério, público e amplo acerca das religiões e de suas teologias têm cobrado um alto preço do país. Os chamados intelectuais e aquele e aquelas que insistem em não abrir as portas das universidades públicas para a área de Ciência das Religiões e Teologia tendem a contribuir para que haja o avanço de tentativas de estados teocráticos que, como tsunamis, só são percebidos quando se é tarde demais para se escapar deles.

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