Homo incurvatus in se: o fundamentalismo cristão e a ausência de uma ética da alteridade

Homo incurvatus in se: o fundamentalismo cristão e a ausência de uma ética da alteridade

Qualquer pessoa cristã atenta que olha a sociedade de hoje com um olhar crítico perceberá que há um crescente de uma onda fundamentalista em todo mundo e, principalmente no cenário brasileiro atual. Essa pauta, ancorada tanto no movimento evangélico de caráter neopentecostal, quanto em alguns movimentos católicos, tem ganhado força na sociedade, ainda que com bastante resistência por parte de outros grupos sociais.
Algo interessante de se notar nesse crescimento fundamentalista é o enorme esforço colocado em pautas de caráter moral, o que não seria de se espantar visto que grande parte dos movimentos religiosos que adotam o fundamentalismo como doutrina também trazem em seu bojo uma preocupação com a moralidade de maneira exacerbada. Essa moralidade, principalmente no movimento evangélico atual, vem a partir de textos bíblicos que são tirados dos seus contextos para servirem de pretexto para afirmarem aquilo que consideram a vontade de Deus para a humanidade, sendo o carro chefe as questões de caráter sexual.
Com isso em mente, ainda que deplorável, não é de se espantar o que aconteceu no evento da última semana, em que o prefeito do Rio de Janeiro, pertencente a uma igreja neopentecostal, insatisfeito por ver em uma revista em quadrinho dois meninos se beijando, ordenou que o material fosse recolhido da bienal do livro que acontecia na cidade, considerando que esse tipo de material seria pernicioso para as crianças. Isso é um exemplo bem claro daquilo que expusemos no parágrafo anterior.
Contudo, ao mesmo tempo em que tal movimento fundamentalista prega suas pautas moralizantes tomando por base o texto bíblico, desconsideram o forte caráter social que o próprio texto traz tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento. No lugar da preocupação social entra a preocupação com o ser privado, com a alma que precisa estar em santidade para poder ir para o céu quando “Jesus voltar”. Assim, o que importa é somente uma pureza interior, uma santidade que permite orar sem culpa, que permite se considerar uma pessoa mais justa, mais fiel e mais amada por Deus, por fazer aquilo que “Ele ordenou” em sua palavra.
Aqui surge um paradoxo interessante: ao mesmo tempo em que se prega uma santidade pessoal e privada para se aproximar de um Deus que é amor, não se importa com o fato de que a taxa de violência contra os homossexuais no Brasil é uma das mais alarmantes no mundo, insuflado, justamente, por um discurso de que tal prática é considerada como pecado por Deus. Ao mesmo tempo em que se propõem evangelismos proselitistas nas favelas para a “salvação das almas” que ali estão, comemora-se quando a polícia mata alguém que comete algum crime e fala que “bandido bom é bandido morto”, dentre tantos outros exemplos que podem ser citados nos quais a realidade social do outro é deixada de lado desde que um “eu” se sinta em santidade. Em outras palavras, desenvolve-se um fundamentalismo meramente moral sem nenhuma preocupação ética que leve em conta a sociedade, o outro e suas respectivas questões.
Ao ressaltar o caráter privado da moralidade como algo desejado por Deus, esquecendo-se do caráter social da mensagem de Jesus, o movimento fundamentalista joga por terra todo o Evangelho e todo texto bíblico, cujo foco sempre se mostrou na transformação da sociedade para que esta se torne um lugar em que habita a justiça e a misericórdia de Deus, que somente pode ser entendida no cristianismo tendo em vista que Deus é amor.
A preocupação com uma moral privada que não olha para a sociedade em nada tem a ver com o Evangelho e em nada tem a ver com a humanidade desejada por Deus. O homo incuvatus in se, pecador, sobre o qual Lutero falava, é todo ser humano que se volta somente para si. Em outras palavras, aquele que é incapaz de olhar para além de si mesmo em direção ao seu próximo, que como afirma João, é o critério pelo qual podemos avaliar se alguém ama a Deus ou não.
Diante disso, relembrar o caráter social do Evangelho anunciado por Jesus em Lucas 4,18-19 se mostra de extrema importância no cenário atual: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para pregar o Evangelho aos pobres. Ele me enviou para proclamar a libertação dos aprisionados e a recuperação da vista aos cegos; para restituir a liberdade aos oprimidos, e promulgar a época da graça do Senhor”.
Uma moralidade cristã privada, que se preocupa somente consigo, sem se importar com a crise social que vivemos ao redor do mundo, mostra-se como moralidade que não compreendeu a mensagem de Jesus e, consequentemente, mostra-se como moralidade sem ética. Em outras palavras, uma moralidade não cristã.
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