Um paradoxo na mochila do cristianismo

Um paradoxo na mochila do cristianismo

A questão do diálogo no meio cristão constantemente se mostra carregando um paradoxo em sua mochila de caminhada. Esse paradoxo está no fato de que se fizermos a pergunta: “você acha que o cristão deve ser aberto ao diálogo?” a qualquer pessoa que se diz cristã, provavelmente, a resposta será um alto e bem sonoro “sim”. Da mesma forma, é de se esperar que a resposta para a pergunta: “você é uma dessas pessoas que são abertas ao diálogo?” receba o mesmo “sim” da pergunta anterior, afinal, ninguém se considera um intolerante ou não aberto à questão dialógica, ainda mais no mundo contemporâneo em que esse ponto é até mesmo incentivado nos meios corporativos, nos ambientes de estudo e trabalho onde essas pessoas cristãs estão inseridas.
Ao mesmo tempo, porém, é possível perceber os diversos atentados que são feitos por pessoas que se dizem cristãs contra as outras religiões fora do escopo cristão, como por exemplo, as religiões de matrizes africanas. Constantemente essas religiões têm seus terreiros destruídos por grupos evangélicos, ou ainda, seus seguidores e seguidoras são considerados como filhos do diabo, ou servos de Satã, como pessoas que querem desvirtuar as pessoas do caminho da luz, dentre tantos outros títulos que, provavelmente, as pessoas praticantes de religiões de matrizes africanas já ouviram em algum momento de sua vida.
Nesse sentido, o paradoxo consiste justamente no fato de que pessoas cristãs, quase unanimente, dizem que são abertas ao diálogo, e ao mesmo tempo, destroem os lugares de culto que são contra a forma que entendem ser a correta para a adoração a Deus.
Que o medo do diferente seja uma das grandes motivações desse tipo de atitudes não podemos negar. Afinal, teme-se aquilo que não se conhece e como conhecer dá trabalho a quem busca o conhecimento, muitas pessoas preferem, assim, manter seus antigos preconceitos e leituras fundamentalistas a tentar compreender quais são os referenciais teológicos e espirituais de determinada religião para, através disso, poder aprender com ela e, quiçá, tornar-se uma pessoa cristã melhor, ajudando também ao dialogante se tornar um fiel melhor na prática de sua própria religião.
Outra motivação, contudo, que acredito ser ainda mais séria do que a questão do medo, é justamente a ideia de superioridade que existe e prevalece dentro do movimento cristão. Essa ideia é diversas vezes fomentada por diversas pregações que versam sobre as pessoas cristãs serem o “povo escolhido de Deus”, “conhecedores da verdade”, “instrumentos de Deus para a salvação do mundo”, dentre outros títulos que criam a sensação de que ser pessoa cristã concede um status de ser melhor do que aquelas pessoas que não o são.
Diante disso, é de se perguntar: como uma religião que se julga superior às outras pode dialogar? Não exige o diálogo a equidade de dignidade entre os dialogantes, de maneira que o que um tem a dizer tem a mesma importância daquilo que o outro tem a expressar? Dialogar não parte, justamente, da ideia de que há algo a ser aprendido e ensinado pelas partes dialogantes? Se essas premissas não são aceitas, se uma parte se acha superior à outra, mais correta, mais santa, mais verdadeira, o que se propõe não é um diálogo, antes, um proselitismo (muitas vezes light) com ares de misericórdia para com os que não conheceram “a verdade do cristianismo”.
Que isso aconteça com as outras religiões também não seria de se admirar. Afinal, em todas as religiões há aqueles e aquelas que não são abertos ao diálogo e ao diferente, por se considerarem como detentores do conhecimento a respeito da verdade última.
Contudo, como pessoas que se dizem cristãs e, consequentemente, seguidoras de Jesus, estar aberto ao outro para ouvi-lo e tentar entendê-lo é algo imprescindível. Se Deus é amor, como os seguidores de Jesus acreditam que ele seja, então essa abertura é um estilo de vida, motivado por esse mesmo amor que nos alcançou e nos faz perceber que só podemos amar porque fomos amados primeiro, ao mesmo tempo em que também nos alerta para o fato de que, no amor, não há filhos e filhas preferidas, não há melhores e piores diante de Deus.
Se todos e todas são alcançados pela graça divina, como afirma o cristianismo, então toda ideia de superioridade religiosa não pode encontrar amparo entre as pessoas que se dizem cristãs. E isso é uma condição crucial para se pensar a ideia do diálogo inter-religioso hoje.
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