Até quando nos faltará coragem?

Até quando nos faltará coragem?

É comum que ao serem perguntadas a respeito do lugar da teologia na vida pública, as pessoas respondam que esse lugar se refere às igrejas, comunidades e associações religiosas e filantrópicas. Já está, de alguma forma, estereotipado em nossa sociedade o papel e o lugar dos teólogos.
Curiosamente, se se pergunta em um ambiente acadêmico a respeito desse mesmo lugar, a resposta tende a ser diferente e se referirá à questão da reflexão a respeito da sociedade e seu olhar na transformação dela, partindo do pressuposto da fé cristã. Dessa forma, o estudo teológico tem um papel fundamental na construção de uma sociedade mais justa, tendo na relação entre Deus e a humanidade sua força e esperança de luta. Nesse pano de fundo, o teólogo ou teóloga é aquele que pode trabalhar tanto nas igrejas e comunidades, como também em todas as esferas da vida pública, ou seja, academia, política, economia, e por aí vai.
Não precisa ter um olhar muito atento para se perceber que a visão que predomina no país é a primeira, a de que o lugar da teologia se limita aos ambientes filantrópicos e eclesiais. Assim, a pergunta a respeito da responsabilidade se faz necessário. Quem seriam os responsáveis para que a teologia ocupasse essa visão no meio popular?
A resposta, assim como todas as respostas às questões difíceis, não é tão simples como se queira imaginar. Ao mesmo tempo que se tem o fator histórico em que a ciência desenvolvida no país, desde sua origem, tenha tido um forte aspecto positivista e, assim, a exclusão da teologia dos ambientes acadêmicos como algo de caráter meramente eclesial se fez de forma necessária por parte de legisladores que temiam a ausência de laicidade no Estado, também se tem a responsabilidade da própria teologia que, em sua zona de conforto, optou durante muito tempo por não lutar em prol de seu caráter público em meios universitários do país. Uma vez restrita somente ao seu próprio gueto, a teologia ao mesmo tempo que foi colocada do lado de fora, também se colocou nessa posição e, por causa disso, esteve ausente de grandes decisões em diversas esferas do país.
Hoje, por sua vez, cresce-se a influência de um setor evangélico pentecostal e neo-pentecostal no país. Esse movimento, grandemente liderado pela Igreja Universal do Reino de Deus e seus pastores que, na maioria das vezes, não são teólogos, possui pautas conservadoras que, em muitos aspectos, vão contra o aspecto da laicidade do Estado Brasileiro, o que é um grande risco no cenário de instabilidade política e econômica em que se vive atualmente.
Mas, diante desse novo cenário que se abre, como pode uma teologia séria e comprometida com Deus e com a humanidade ocupar espaços na sociedade e o que se falta para isso?
Uma possível resposta é que temos, muitas vezes, teólogos e teólogas covardes. Falta-nos, em muitos aspectos, coragem e organização para tomarmos posição, assumir um lado de luta, denunciar atrocidades feitas em nome de Deus, ser voz profética contra aqueles que exercem autoridade tanto no país quanto nas igrejas.
Em muitas situações, falta-os coragem para repensar a própria fé a partir das questões do cotidiano que tanto afligem diversas pessoas em nosso país, tais como a homofobia, a pluralidade religiosa, o aborto, o tráfico de drogas, a pobreza, a intolerância, o capitalismo predatório, a questão indígena, quilombola, ecológica, dentre tantas outras.
Para se repensar a fé em seus diversos contextos é preciso coragem para sair da zona de conforto ao mesmo tempo que se precisa criatividade para falar o que se crê de uma maneira nova. E tudo isso, na força do Espírito de Deus que renova todas as coisas e traz vidas nos lugares em que se impera a morte.
Assim, teólogos e teólogas de nosso país são chamados a serem corajosos e assumir o exemplo de Cristo de denúncia das estruturas de morte em todos os ambientes da vida pública e caminhada com os marginalizados de nossa sociedade, em prol de um mundo mais justo. Somente assim, ela estará apta a figurar na esfera pública como voz demandada e ouvida pela nossa sociedade.
Será que teremos essa coragem?

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