Sobre o controle da vida

Sobre o controle da vida

Qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso de sua vida?
Essa pergunta de Jesus se encontra no sermão do monte. Esse sermão é considerado por muitos como uma síntese de todo evangelho pregado por Jesus. É um texto muito bonito e interessante de se ler, e que traz questões muito profundas para um viver cristão autêntico.
Ao colocar essa pergunta, penso que Jesus toca um dos pontos mais fulcrais de nossa existência e, como bom subversivo, coloca em xeque a ideia de que podemos ter controle sobre a vida e sobre as intempéries e bençãos que encontramos em seu percurso.
A pergunta é retórica. Os ouvintes sabiam e nós também sabemos que não é possível fazer nada para prolongar a vida se se está na hora da morte. Mesmo assim (como naquele tempo, mas hoje com novas formas de fazer e um discurso bem mais elaborado) ainda temos a ideia de que nossa vida está em nosso controle. Com isso em mente tentamos freneticamente planejar a vida, encaixar cada coisa em seu devido lugar, definir os tempos para o estudo, os filhos, a mudança de emprego, e tantas outras coisas de nosso dia a dia.
Não digo com isso que esses planejamentos não devem ser feitos e que devemos viver em uma total entrega ao destino, em uma ideia simplista de que “o que será, será” ou “está escrito nas estrelas. Viver pensando assim pode ser uma forma de lidar irresponsavelmente com relação à vida.
A fala de Jesus nos dirige ao cuidado do Pai para conosco, algo que Pedro, talvez depois de muito tempo, entendeu isso ao dizer: “lançai sobre Ele vossas ansiedades, pois Ele tem cuidado de vós” (1Pe 5:7)
Já sabemos que não temos poder e controle sobre a vida, mas ainda assim essa tentação chega aos nossos corações nos fazendo pensar que adiconaremos um dia a mais, uma hora a mais, um momento a mais. 
Jesus, ao longo de sua explanação fala da beleza dos lírios, dos pássaros que não juntam alimentos, enfim, da brevidade e simplicidade da vida o que, sem dúvida, choca a nós que vivemos em um mundo que prega a ostentação e nos mede pelo que temos.
Aprender a lidar com o fato de que a vida tem suas intempéries, de que aquilo que planejamos pode não dar certo, que a mudança é prórprio da vida, que a cada mudança há um novo começo que preciso aprender a lidar, talvez seja uma das questões que Jesus tinha em mente ao fazer essa pergunta.
Ao mostrar os lírios que se vestem esplendorosamente, morrendo em poucos dias, não estaria nos convidando a viver a beleza da vida em sua intensidade nesse sopro que ela é para nós, aproveitando e desfruntando de cada momento e de cada novidade que nos advém?
A ansiedade quanto às coisas que nos sobrevirão e como faremos quando essas vierem, não seria a tentativa frenética de termos poder e controle sobre a vida que nos é dada?
Compreender que não temos esse controle pode ser uma das tarefas mais difíceis em nossa existência e, talvez, a que pode nos trazer maior liberdade uma vez aprendida.
Pensemos
Fabrício Veliq
20.08.2015 – 10:07

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