A frenética busca de uma certeza da salvação

A frenética busca de uma certeza da salvação

Photo by Haitham on Unsplash


Ainda é muito comum em nossos dias as pessoas que se dizem cristãs estarem em busca de certezas a respeito da fé. Desejam, a todo custo, terem chancelado o caminho que estão percorrendo para, assim, garantir que a salvação os aguarda ao final da jornada.

Essa busca de segurança, todavia, não deve ser motivo de condenação. Afinal, quem de nós não deseja essa confirmação de que aquilo que fazemos é bem-visto aos olhos de alguém? Ainda mais quando o assunto é tão sério, como a questão da salvação.

Contudo, ao observarmos o texto bíblico, tal garantia só se mostra nos textos do Antigo Testamento, principalmente no período em que Deus era visto como Aquele que fazia uma aliança com seu povo, do tipo contratual. Em outras palavras, se ao povo era solicitado que se cumprissem os mandamentos de Javé, da parte de Javé provinha a segurança, as vitórias nos tempos de guerra e a prosperidade em todos os empreendimentos do povo.

Um exemplo muito claro dessa dinâmica se encontra no texto de Deuteronômio 28, que se inicia com uma condicional: “se escutares verdadeiramente a voz do Senhor teu Deus, cuidando de pôr em prática todos estes mandamentos que hoje eu te dou, então…” Esse versículo deixa claro o tipo de relação estabelecida nesse contrato. Agora, uma vez que o povo obedecesse podia, de alguma maneira, requerer tal proteção divina e vitórias, afinal, estariam cumprindo sua parte. Em outras palavras, tanto Deus quanto o povo se tornavam responsáveis por cumprir aquilo que havia sido firmado.

Esse tipo de teologia retribucionista é marcante em todo texto bíblico. Até mesmo no Novo Testamento é possível perceber traços dessa teologia, sendo um exemplo disso o texto do Apocalipse joanino.

Que tal teologia tenha sido questionada já antes de Jesus, os livros de Jó e Eclesiastes deixam isso muito claro. Contudo, como é possível perceber, tal teologia ainda se faz presente hoje, sendo tanto consequência, como geradora dessa busca de certeza sobre a qual iniciamos nosso texto.

No entanto, a compreensão do conceito de fé nos leva em outra direção. Afinal, a fé é o contrário da certeza, uma vez que se se tem certeza de alguma coisa, a fé se torna sem sentido. Não precisamos de fé para dizer que se jogarmos um lápis para o alto ele cairá. A força da gravidade garante isso e, portanto, falar em uma “fé na gravidade” se torna algo sem sentido.

Ter fé em Deus, em perspectiva cristã, implica abrir mão dessa busca de certeza de que se está no “caminho da salvação”, até mesmo porque, na perspectiva dos Evangelhos, a salvação é dada gratuitamente, independentemente das obras, sendo aceita, diga-se de passagem, por meio da fé. Ninguém em nossos dias viu a salvação para garantir que ela seja verdadeira, e possivelmente, não conhecemos alguém que tenha visto Jesus ressuscitado para garantir com certeza de que Ele está vivo.

Todas essas realidades são aceitas pela fé, de maneira que buscar a certeza dessas coisas se mostra contrário àquilo que, como cristãos, compreendemos sobre o que é a fé.

A busca de certezas a respeito da salvação se revela como fruto de um relacionamento infantil com Deus, tal como uma criança pequena que chora quando a mãe ou o pai saem de sua vista, por achar que eles não estão mais ali. Insistir nisso é pernicioso para o amadurecimento cristão.

Longe das certezas, a fé cristã nos convida a nos lançarmos em confiança de que Aquele que fez a promessa é fiel para a cumprir. Um “salto”, como diria Kierkegaard. E nada mais que isso.

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