Lembrar-se de Deus: um desafio para tempos de prosperidade

Lembrar-se de Deus: um desafio para tempos de prosperidade

Photo by Aaron Andrew Ang on Unsplash


É extremamente bem conhecida no meio cristão a história do povo de Israel e seu êxodo do Egito. Há diversos quadros espalhados em diversas casas que tentam retratar a passagem do mar dos juncos, ou ainda a peregrinação do povo de Israel pelo deserto.

Há também um cabedal enorme de pregações e reflexões a respeito dessa temática. Em uma busca simples na internet é possível encontrar milhares de textos, áudios, vídeos de alguém falando sobre essa narrativa que marca a história do povo de Israel, bom como a forma como Deus, no judaísmo e no cristianismo, ficou conhecido, ou seja, como Deus que se manifesta na história e tem nela o seu lugar de atuação.

Um dos textos que considero muito interessante em todo esse percurso do povo pelo deserto se encontra em Deuteronômio 8, nos versículos 17 e 18. Em seu contexto imediato, o povo está em vias de atravessar o rio Jordão para entrar na terra de Canaã. Antes disso, porém, Javé dá diversas instruções ao povo sobre aquilo que deveria se guardar ao entrar na terra prometida.

Duas delas se encontram nos versículos 17 e 18 desse mesmo capítulo. O texto diz: “Não vais dizer a ti mesmo: “Foi pela força do meu punho que cheguei a esta prosperidade”, mas lembra-te de que o Senhor, teu Deus, é quem te terá concedido força de aceder à prosperidade, para confirmar sua aliança jurada a teus pais, como hoje se vê”.

Claramente, vê-se duas instruções: 1 – não considerar que foi a própria força do povo que a fez entrar na terra; 2 – lembrar-se de que a força necessária para atingir o objetivo veio da parte de Javé.

Essas instruções podem, tranquilamente, se quisermos, serem trazidas para nossos dias, visto ser muito comum vermos pessoas cristãs que se exaltam por ter conseguido algum sucesso e se consideram os únicos responsáveis por ele, como se toda força, inteligência, oportunidade necessárias tivessem partido somente dela. Numa espécie de “eu contra o mundo”, tais pessoas pensam piamente que tudo que possuem é fruto somente de seu esforço, ignorando todas as outras variáveis no processo, bem como os diversos suportes recebidos de familiares, amigos, igreja, e, no caso cristão, a própria bondade de Deus na concessão da vida.

Quando olhamos para o relacionamento que muitos estabelecem com o tema da salvação no cristianismo, tal dinâmica, em muitos casos, não se mostra tão diferente assim. Há diversas pessoas que se dizem cristãs que se consideram merecedores da salvação. Consideram seus atos e sua conduta tão maculada que serem salvas é quase um dever divino, ou um justo pagamento pela forma como viveram sua vida na Terra. Como consequência, consideram-se mais dignos do que outros e ao mesmo tempo, elevam-se ao cargo de sommelier da salvação mundial. Em outras palavras, pensam que é o seu braço forte que conquistou para si essa salvação e se esquecem de que, a partir de Jesus, não há nada que possamos fazer para sermos salvos, sendo tal salvação algo que vem pela graça, como dom, a ser aceito pela fé.

Lembrar-se de Deus é difícil em momentos de prosperidade, mas é justamente quanto a isso que o texto de Deuteronômio nos chama a atentar-nos. Na perspectiva bíblica, tudo que é bom vem de Deus e é sua misericórdia que nos permite, até mesmo, levantar-nos pela manhã. Assim, toda soberba se mostra sem sentido, sendo a manifestação do não reconhecimento da nossa real posição diante de Deus.

Obviamente, nem o texto do Deuteronômio, nem os textos do Novo Testamento incentivam a preguiça, numa espécie de que não se deve fazer nada para alcançar aquilo que se deseja, porque Deus concederá todas as coisas. Quem prega algo do tipo, claramente não compreendeu o texto bíblico.

Devemos, sim, esforçar-nos e fazer o que está em nosso alcance para alcançar nossos objetivos nesta vida. No entanto, não devemos nos esquecer de que, numa perspectiva bíblica, toda força, sabedoria e inteligência vêm de Deus, de maneira que toda soberba deve ser evitada, reconhecendo que pela graça e misericórdia de Deus vivemos, nos movemos e existimos neste mundo.

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