Um pequeno percurso hermenêutico no Ocidente

Um pequeno percurso hermenêutico no Ocidente

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A questão hermenêutica do Ocidente não pode ser vista sem a sua preocupação com o texto bíblico por parte do povo judeu. A história judaica é contada a partir da sua relação com Javé e não deve ser desassociada dessa característica.

Diante dos diversos eventos históricos que aconteceram ao povo, tais como o primeiro Êxodo, quando o povo de Israel deixa o Egito, a presença da monarquia que se inicia com Saul e segue até o exílio na Babilônia, passando pelo período pós-exílio e os períodos de dominação egípcio, grego e romano, surge então uma necessidade espiritual por parte do povo de interpretar sua história, bem como seu livro sagrado, a Torá, que a fornece a “plena verdade necessária à vida do homem[1].

Nesse sentido, é importante considerar que essa hermenêutica não tem um caráter filosófico, mas sim espiritual. Assim, dentro da hermenêutica judaica, como bem nos mostra Jearond, é possível identificar quatro métodos de interpretação: a literária, que de maneira mais simples consistia na interpretação do deuteronômio, partindo do pressuposto de que a interpretação do texto era o que estava escrito, a midrashica, que posteriormente desenvolvida, tinha o intuito de extrair do texto algo que a mais do que sua simples imediatez, a pésher, usado nas comunidade de Quram, cujo objetivo estava em descobrir os mistérios divinos, sendo uma atualização do método midráshico e alegórico, que tinha como intento uma leitura mais simbólica do texto da Torá.

O Cristianismo, que nasce dentro desse contexto de interpretação, desenvolveu a interpretação tipológica, ou seja, os textos judaicos eram lidos a partir do evento Cristo. Com a luta contra os gnósticos, duas escolas de interpretação surgem no meio cristão. De um lado, a escola de Alexandria que, ancorada na fé da Igreja, tinha o intuito de uma interpretação arraigada no método alegórico, sendo Orígenes um dos grandes expoentes dessa escola.

Do outro lado, a escola de Antioquia, mais fundada na tradição judaica, dava ênfase ao campo gramatical e textual das Escrituras, tendo sido um de seus teólogos Teodoro de Mapsuéstia denunciador do perigo da hermenêutica de Orígenes de negar a realidade da história bíblica. Ainda que as duas escolas trabalhem com paradigmas bem diferentes, “esses dois paradigmas não foram jamais observados de forma estritamente separados dentro da Igreja primitiva[2]”.

Dentre os diversos teólogos que se aventuraram no campo de uma hermenêutica do texto bíblico, ora defendendo uma escola, ora defendendo outra, foi Agostinho o grande responsável por sintetizar as linhas de pensamento de Alexandria com a de Antioquia.  Sua proposta foi fazer uma análise detalhada do texto para melhor compreender seu sentido espiritual. Como a coisa é diferente daquilo que ela se refere, as Escrituras devem ser vistas como produção humana que faz referência a Deus.

Seguindo Agostinho, as Escrituras poderiam, então, serem trabalhadas de forma análoga às formas de trabalho com textos não cristãos e ser interpretada usando os mesmos métodos utilizados para análises textuais. Uma vez que sua perspectiva para a interpretação do texto bíblico deve ser o amor e não o texto por si mesmo, pode-se dizer que a leitura hermenêutica de Agostinho se centra na prática.

Esse simples percurso mostra as diversas teias necessárias para se compreender a questão hermenêutica no cristianismo. Investir nisso é, ainda hoje, uma tarefa teológica de suma importância.

[1] JEAROND, Introduction a l´herméneutique théologique, 1995, p.25.

[2] JEAROND, Introduction a l´herméneutique théologique,1995, p.33.

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