Páscoa: profecia e esperança

Páscoa: profecia e esperança

Photo by Paul Zoetemeijer on Unsplash


No último final de semana o cristianismo ocidental celebrou um dos marcos da fé cristã: a Páscoa. Ainda que saibamos que tal data foi fortemente transformada em meio de lucro para empresas, principalmente de chocolates, não podemos deixar que isso venha a nos desestimular de refletir e celebrar tal data.

A Páscoa, como possivelmente todos os leitores e leitoras deste texto saibam, não é uma festa de origem cristã. A data de sua criação não é sabida de fato, porém, acredita-se que a celebração já existia bem antes da ressignificação feita pelo povo de Israel, fazendo parte da cultura dos pastores nômades do Mediterrâneo, que a celebravam a fim de preservar seu gado, família, pertences etc. da ação do Destruidor (maxehit, em hebraico), o que implica pensar que Abraão, Isaque, Jacó e vários outros membros do povo hebreu tenham também celebrado esse ritual.

Com a saída do Egito e a entrada em Canaã, o povo de Israel deixa de ser nômade, estando fixo em determinado espaço geográfico. Dessa forma, a agricultura passa a fazer parte do cotidiano do povo. Com a aproximação de Israel dos povos cananeus, há também o contato com as festas do mundo agrícola, sendo nesse período em que há a integração da festa dos pães ázimos (de origem agrária) com a festa da Páscoa (de origem pastoril).

Ao observarmos com mais atenção o texto de Êxodo 12, em que há a instituição da Páscoa, como nos mostra Pablo Andiñach, é possível perceber que ali o “autor” do livro conta sobre a libertação do Egito, emoldurando a narrativa por dois textos de ordem legislativa e litúrgica. O primeiro tendo como tema a Páscoa e o segundo tendo por tema a tradição dos Ázimos. O “autor” do livro do Êxodo, ao projetar sua narrativa a partir da saída do Egito, coloca a celebração do ritual como ordem de Javé. Tal ritual, por sua vez, deve servir como memória para o povo da libertação providenciada por Javé ao ouvir o seu clamor.

O tema da libertação do Egito, terra da servidão, se tornará uma das grandes chaves hermenêuticas do povo de Israel e, posteriormente do povo cristão. A ligação é bastante clara: assim como Javé libertou os israelitas do opressor e da morte, assim também Jesus, mediante sua morte e ressurreição liberta a todos e todas do poder da morte. Assim como Javé ouviu o clamor do povo sofredor e interveio em sua história, trazendo uma nova vida, Jesus, por meio da sua entrega amorosa concede acesso a uma nova vida de relacionamento com Deus.

Fazer a celebração da Páscoa é, portanto, assim como era para o povo israelita, reviver a experiência da libertação e reacender a esperança de que diante do mal que nos assola, Deus não está distante, mas ouve o clamor daqueles e daquelas que diariamente são oprimidos, têm o seu direito negado e sofrem a afronta da morte diariamente.

Celebrar a Páscoa, dessa forma, tem o seu caráter profético, de denúncia contra as estruturas de morte que insistem em permanecer no nosso mundo. Lembrar-se disso é tarefa cristã para que tal celebração não se torne somente um ritual vazio e costumeiro. Antes, que por meio dela, recobremos a responsabilidade de sermos sal da terra, na esperança de que a morte não tem a última palavra, uma vez que em Cristo, ela está vencida.

Ele ressuscitou. Esse é o motivo de nossa esperança.

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