Apesar da imprevisibilidade da vida, Deus cuida de nós

Apesar da imprevisibilidade da vida, Deus cuida de nós

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E quem de vós pode, à força de preocupar-se, prolongar, por pouco que seja, a sua existência? Mateus 6,27.

Esse versículo, talvez mais conhecido no meio evangélico do Brasil pela tradução de João Ferreira de Almeida que diz: “qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida?”, faz parte de outra parte muito conhecida da Bíblia, já consolidada como Sermão do Monte.

Nesse longo trecho, que em Mateus segue do capítulo 5 até o capítulo 7, ao contrário do que muito se ouve, não se trata de uma síntese do ensinamento de Jesus, antes, como nos mostra a Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB), Mateus apresenta tal sermão como uma didakhé, ou seja, “um ensino que supõe a proclamação anterior do Reino”.

Esse pequeno versículo, por sua vez, lendo no conjunto do sermão, traz um grande ensinamento para nossos dias. Num primeiro momento, quem trata a Bíblia como uma grande caixa de promessas, da qual se tira somente alguns versículos motivacionais para o dia a dia, ao pegar tal versículo pode pensar que o que Jesus está falando seja sobre uma espécie de fatalismo. Ou seja, a ideia de que já se tem tudo determinado e, por esse motivo, não devemos nos preocupar com nada, visto que não podemos alterar a ordem das coisas, ou aquilo que já foi pré-determinado por Deus em algum passado distante. Nesse sentido, uma vez que não se pode fazer nada contra a ordem de Deus, então se torna inútil se preocupar com a existência etc.

No entanto, lido no contexto do texto, percebe-se que a fala de Jesus aborda a questão da confiança em Deus, a quem se dirige a oração citada no início do capítulo 6. Em outras palavras, por termos um Pai/Mãe amoroso/a que caminha conosco, não devemos andar ansiosos diante das circunstâncias da vida.

Ao mesmo tempo, a fala de Jesus, ainda que tão distante temporalmente de nós, convida-nos a refletir sobre a sociedade contemporânea.

Por um lado, constantemente vemos aqueles e aquelas que mesmo fazendo todo o possível para sobreviver, não conseguem, muitas vezes, suprir as necessidades básicas para uma vida tranquila. Na realidade de milhões de pessoas que passam fome e outras carências que assegurem sua dignidade, a ansiedade e o medo se mostram presentes e não há nada a ser recriminado nisso. Somente quem nunca passou por situações assim diz a alguém que não consegue saber se terá comida e moradia no próximo mês: “que isso, você está se preocupando à toa”. No entanto, o versículo nos admoesta a nos lembrarmos de que Deus caminha conosco, ao nosso lado, e nos dá forças e coragem para passar pelos momentos nos quais pensamos não haver mais saída. Em outras palavras, Deus continua cuidando de sua criação e se faz presente de diversas maneiras, até mesmo no mais profundo do sofrimento humano e diante de suas carências diárias.

Numa outra perspectiva, temos a própria vida e sua imprevisibilidade, algo muito difícil para muitas pessoas aceitarem. Principalmente hoje, em que pululam discursos motivacionais que afirmam que devemos ter o controle da nossa vida, como se de alguma forma isso fosse possível. Tais discursos, por sua vez, esquecem-se de que tentar controlar a vida é esquecê-la de viver, uma vez que uma de suas principais características é o caráter de surpresa que ela possui.

Aceitar a imprevisibilidade da vida, por sua vez, não tem a ver com o conformismo ou com uma ideia fatalista da qual falamos mais acima. Antes, é reconhecer-se humano e, como tal, pequeno, não imortal e sujeito ao acaso, sendo exatamente tal vulnerabilidade diante da imprevisibilidade aquilo que nos humaniza.

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