Pastores como pedágio? A falta que uma teologia pública faz

Pastores como pedágio? A falta que uma teologia pública faz

Photo by Harmen Jelle van Mourik on Unsplash


Na semana passada, diversas pessoas viram ou ouviram a fala do pastor José Wellington Bezerra da Costa, afirmando uma estratégia para repasses de emendas parlamentares para os municípios, via pastores da Assembleia de Deus. “A emenda só vai para o prefeito por intermédio do pedido do pastor da Assembleia de Deus” é uma das frases que se pode ouvir no vídeo disponibilizado no YouTube. Isso aconteceria para que o prefeito de determinada cidade “respeitasse” a igreja que estava ali representada junto à figura de seu pastor. Nesse mesmo discurso, conclama aos fiéis a eleger irmãos na fé e a serem também fiéis à Assembleia de Deus.

Que por si só tais falas sejam um absurdo, não fica tão difícil de se perceber. Afinal, usar do poder religioso para influenciar diretamente no repasse de verbas para municípios é um problema ético enorme, além de estar totalmente contra a proposta do Evangelho anunciado por Jesus Cristo.

Da mesma forma, determinada igreja se colocar como uma espécie de pedágio para que a população de determinada cidade tenha acesso a um dinheiro que a ela pertence, devido aos impostos pagos, foge completamente daquilo que é a razão de ser da igreja no mundo. A igreja não é intermediária das verbas do Estado, não deve deter o poder de determinar, seja por chantagem, seja por influência, o destino dessas verbas.

Agora, dois aspectos se mostram importantíssimos de serem considerados: em primeiro lugar, o grande risco que a normalização desse tipo de conduta traz. Numa espécie de neocalvinismo tosco, são várias igrejas evangélicas que têm alargados seus tentáculos em diversas esferas da sociedade, na tentativa de exercer seu domínio e impor sua “visão de mundo” goela abaixo. Veja, por exemplo, a bancada evangélica e suas propostas legislativas enviesadas por uma leitura fundamentalista do texto bíblico.

Em segundo, a urgência que se coloca de uma teologia que seja pública e seja oferecida em universidades e institutos federais do país. O grande preconceito que ainda se mantém em relação aos cursos de teologia, fruto de uma visão de ciência meramente positivista, confinando-os somente às instituições clericais, ou ligadas a alguma denominação se revela como alimentador de uma sociedade que comumente vê questões teológicas como meramente espirituais, tornando-se, assim, alvo fácil para charlatões e charlatães da fé.

Sem um ensino público de teologias, suas fundamentações teóricas, suas falácias, seus erros, as diversas perspectivas etc. temos, em certa medida, dado forças a bases que tentam transformar a sociedade em uma teocracia, o que, não precisamos dizer, é algo extremamente pernicioso.

Esses dois aspectos que levantamos aqui estão intimamente conectados. A crescente influência de pensamentos fundamentalistas e conservadores fomentados em igrejas na política atual se entende também a partir da baixa formação teológica que a sociedade como um todo possui.

Acreditar que se deve votar em “irmão na fé” por ser uma garantia de que tal pessoa seja serva de Deus e fará um trabalho exemplar revela o grande abismo em que temos nos afundado e o quão carente a sociedade se mostra de um conhecimento religioso e teológico sério, a fim de identificar os enganos presentes nesse tipo de discurso.

Até quando será assim? Depende. Até quando não se perceberá que sem ensino teológico público e sério o que fazemos é deixar que os discursos teocráticos se infiltrem na sociedade e, aos poucos, contaminem suas leis?

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