Transformamos a Teologia em gueto?

Transformamos a Teologia em gueto?

Photo by Kylie Lugo on Unsplash


Falar para o próprio gueto não é uma tarefa difícil. Na verdade, a meu ver, mostra-se como uma das coisas mais fáceis de se fazer. Afinal, todas as pessoas pertencentes ao gueto estão cientes dos termos usados, das construções argumentativas, dos pressupostos históricos etc., o que faz com que qualquer discurso feito por um dos/as membros/as seja facilmente compreendido.

Em qualquer área tal característica funciona do mesmo jeito. Basta ver, por exemplo, um grupo de profissionais de TI conversando, ou um grupo de antropólogos, filósofos, matemáticos etc. Em outras palavras, cada grupo tem seu linguajar próprio e seu campo semântico apropriado que, uma vez que determinada pessoa entra em tal grupo, a comunicação se dá quase que exclusivamente dentro de tais parâmetros.

Com a teologia isso não é diferente, obviamente. Durante séculos, principalmente no Ocidente, o cristianismo forjou sua própria linguagem teórica e especulativa. Qualquer leitura da história da Igreja mostra o quanto as primeiras comunidades cristãs tiveram que se haver com os diversos questionamentos feitos pelos que não pertenciam à nova seita que se inaugurava. A partir de tais questionamentos, por sua vez, a teologia cristã criou um arcabouço teórico-conceitual muito vasto, utilizando-se desde a filosofia grega até, em tempos modernos, a própria ciência.

No entanto, embora esse processo tenha sido necessário e importante para a consolidação do próprio cristianismo como religião no Ocidente, também tal procedimento transformou, em vários aspectos, a teologia em um gueto, cujo discurso só faz sentido para teólogos e teólogas contemporâneas.

Todavia, se voltarmos à mensagem de Jesus e aos Evangelhos, perceberemos que Jesus não era um “intelectual”, alguém que citava conceitos e fazia a concatenação sistemática de seu ensino. Muito pelo contrário, Jesus era simples, andava com as pessoas simples e falava uma linguagem simples.

O ensinamento de Jesus era narrativo, e por meio dessas narrativas falava sobre quem é Deus, o que Ele espera de seus filhos e filhas, que tipo de relação gostaria de estabelecer com o mundo etc. Por meio das parábolas, atingia o seu meio, que era composto por camponeses/as e pessoas que lidavam com o serviço braçal e com a terra, de maneira que só poderiam entender a mensagem se esta estivesse em uma linguagem que fizesse sentido para elas.

Isso quer dizer que deva jogar fora todo arcabouço teórico-conceitual do cristianismo, como se não valesse nada e fosse mera deturpação da fé genuína? Claro que não. No entanto, mostra-se extremamente importante não transformar a sistematização na mensagem, como se somente se compreendessem os conceitos se pudesse, então, viver uma fé verdadeira.

A Boa Nova sempre precisa ser boa para quem a escuta e não para quem a fala. Nesse sentido, enquanto a teologia continuar falando somente a partir de sua linguagem rebuscada e de difícil compreensão, ao invés de ser instrumento para levar a mensagem de Jesus, será um entrave para aqueles e aquelas que querem se achegar à Deus. Em outras palavras, se consolidará como mais um gueto dentre tantos outros existentes no mundo.

Conhecer o conceitos é importante? Sim. Saber a história da construção dos dogmas e das teologias? Também. Estudar teologia seriamente é necessário? Sim, sem dúvida. Mas nenhuma dessas questões pode se tonar maior que a mensagem simples do Evangelho que afirma que Deus ama o mundo e reconciliou consigo a humanidade, desejando se relacionar com ela. Essa Boa Nova é simples e deve, sempre que possível, ser narrada de maneira que as pessoas de nosso tempo a entendam.

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