Ser nova criatura

Ser nova criatura

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Aquele que está em Cristo é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas. (2 Coríntios 5,17)

Esse versículo é grandemente conhecido no meio cristão. No meio evangélico, então, é fortemente usado em diversas pregações, nos momentos dos apelos de conversão, ou ainda quando se pergunta, em algum culto, se há alguém com algum problema de relacionamento com Deus.

Que a mensagem de Paulo nesse versículo seja bem confortante, trazendo uma mensagem de esperança para aqueles e aquelas que de alguma forma se sentem desesperançadas e perdidas não podemos negar. Ainda que se faça uma análise exegética mais aprofundada do texto e veja as possibilidades de interpretações da perícope toda, o versículo em questão se mostra bastante claro: a pessoa que está em Cristo é uma nova criatura para a qual as coisas velhas (seus atos pecaminosos, sua conduta que era diferente daquela que Cristo teria, seu egoísmo, sua vida voltada para si etc.) passaram e a ela é dada a possibilidade de viver a novidade de vida trazida pelo encontro com o Ressuscitado.

Ao longo do tempo, porém, foi se cristalizando a ideia de que estar em Cristo seria o mesmo que pertencer ao cristianismo institucionalizado. Tal compreensão, por sua vez, levou o cristianismo a perseguir diversas pessoas, considerando-as como hereges e dignas de morte, como bem nos mostra grande parte do período da Idade Média e do domínio da igreja institucionalizada no Ocidente.

Até hoje, se olharmos mais atentamente para o cristianismo, percebemos diversos grupos com o mesmo discurso, tomando o versículo de 2 Coríntios 5,17 para condicionar o ser nova criatura a algum pertencimento institucional e, mais ainda, até mesmo se tornando sommeliers da salvação oferecida por Deus. Em outras palavras, ainda é comum cristãos e cristãs quererem definir quem está e quem não está em Cristo e quem pode e quem não pode ser chamado de nova criatura de acordo com o padrão estabelecido por alguma instituição.

Claramente, o texto de 2 Coríntios 5,17 não diz que aqueles e aquelas que se tornaram prosélitos são novas criaturas. Antes, coloca-se um condicional: “se alguém está em Cristo, é nova criatura”, mostrando que ser nova criatura não tem a ver com algum tipo de pertencimento institucional, mas com uma relação com a pessoa do Ressuscitado.

Aqui, é importante ressaltar que se pertencer a um cristianismo institucionalizado não implica estar em Cristo, também não se quer dizer que estar em Cristo implica o não pertencimento a alguma instituição. Em outras palavras, o que ressaltamos neste texto é que o mero pertencimento a uma instituição não garante que se esteja com Cristo, assim como o estar com Cristo não é impeditivo para tal pertencimento.

Com isso em mente, o ponto central para a compreensão do versículo se torna entender o que quer dizer a expressão “estar em Cristo”.

Quando voltamos ao Evangelho, percebemos que “estar em Cristo” tem a ver com se ter as mesmas atitudes que Jesus teve, ou ainda, ter Jesus como referência para todas as ações que temos na sociedade. Assim como Jesus amou, devemos amar, assim como ele lutou pela causa dos pobres, também nós devemos lutar, assim como ele anunciou que Deus estava junto aos marginalizados, assim também nós devemos fazê-lo. Ou seja, implica deixarmos de ser pessoas voltadas somente para nós mesmas e estarmos dispostas a nos entregarmos uns aos outros em amor. Em termos paulinos, não andarmos mais segundo os padrões de um sistema corrompido, mas vivermos uma novidade de vida, de acordo com o Espírito de Deus.

Essas atitudes, porém, não são feitas por sermos pessoas boas, ou melhores que outras, mas é fruto do encontro transformador com a pessoa do Ressuscitado, que tendo se entregado por todas as pessoas, segundo Paulo, cancelou qualquer escrito de dívida que havia contra a humanidade uma vez por todas.

Estar em Cristo, portanto, vai muito além de um mero pertencimento institucional.  Tem a ver com uma vida pautada pelo relacionamento com Deus que gera vida no mundo e traz libertação e perdão, ali onde antes havia morte e condenação.

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