Sobre o bem que deixamos de fazer

Sobre o bem que deixamos de fazer

Photo by Nick Fewings on Unsplash


Toda pessoa cristã, em algum momento de sua caminhada, provavelmente já ouviu acerca da necessidade de se fazer o bem. Essa característica é marcante na pregação cristã e são inúmeras as referências que temos a respeito disso no texto bíblico. Contudo, é também possível perceber que nem sempre o fato de saber o que se deve fazer implica o ato de fazê-lo.

Em se tratando de fazer o bem, isso não é uma exceção. Na verdade, é muito comum não falarmos sobre o bem que deixamos de fazer e focar no bem que deveríamos fazer. Nessa perspectiva, o bem que deixa de ser efetivado hoje se torna somente um objetivo que deve ser colocado em prática em uma outra oportunidade mais propícia, sendo que essa oportunidade, quase sempre, é também postergada. Por isso mesmo, não é difícil ouvirmos discursos sobre a prática do bem por parte de pessoas que diariamente não se esforçam em fazê-lo ao seu próximo.

Nesse ponto, entra-se algo muito importante. Na perspectiva bíblica, principalmente nos Evangelhos, o fazer o bem é sempre em direção a uma outra pessoa que dele necessita, sendo descabida a ideia de se fazer o bem somente a si mesmo, ou achar que intenções de bondade sem nenhuma ação são suficientes diante de Deus.

A parábola do bom samaritano mostra isso de forma bastante clara. Tanto o sacerdote quanto o levita passaram ao largo do moribundo semimorto que estava à beira do caminho. Os levitas e sacerdotes no tempo de Jesus eram os responsáveis pelo Templo, pelas ofertas e sacrifícios feitos pelo povo. Em outras palavras, eram os intermediários entre Deus e a nação de Israel, estavam constantemente diante de Deus, realizando aquilo que os rituais da lei ordenavam.

A parábola, porém, mostra que tais pessoas não compreendiam o profundo significado daquilo que era considerado o resumo de toda lei divina, como exposto também em Lucas 10:27: “Amarás o Senhor de todo o teu coração, de toda sua alma, com toda sua força e com todo seu entendimento e amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. Ao deixarem de fazer o bem ao que estava necessitado em seu caminho, demonstravam que não amavam nem ao próprio Deus, nem a seu próximo. O samaritano, por sua vez, considerado como um impuro e alguém indigno de Deus por esses mesmos levita e sacerdote da parábola, foi o que fez o bem efetivamente, como fruto de seu compadecimento pelo seu próximo, sendo esse o exemplo a ser seguido, segundo o ensinamento de Jesus.

Dessa forma, mais importante do que meras intenções em se fazer o bem, ou a teorização do que seria fazer o bem para o próximo, o ensinamento de Jesus é para que atendamos, no que nos é possível fazer e motivados pelo amor, à necessidade daquele e daquela que se coloca no nosso caminho.

O amor, ao longo de todo texto bíblico, é sempre um ato concreto visando o bem do próximo. Dessa maneira, fazer esse bem é a única possibilidade de demonstrar qualquer amor a Deus. Isso mostra a radicalidade da proposta do Evangelho anunciado por Jesus: o ser humano está acima de qualquer lei, ritual, ou dogma, sendo constantemente amado por um Deus que deseja o seu bem. Seguir essa Boa Nova é, portanto, colocá-la em prática em nosso dia a dia e não somente teorizar sobre ela.

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