Aquietai-vos: um desafio em um mundo frenético

Aquietai-vos: um desafio em um mundo frenético

Photo by Tiko Giorgadze on Unsplash


Esse versículo é grandemente conhecido no meio cristão. Esse salmo, por sua vez, como já mencionado em outro texto aqui mesmo neste site, compõe os “cânticos de Sião”, que exaltam Jerusalém e seu Templo como lugar de habitação de Javé, apresentando possivelmente uma dramatização da vitória de Javé sobre o caos inicial e a luta contra a antiga serpente marinha, a fim de mostrar que, diante do medo do povo para com seus inimigos, Deus é aquele que garante vitória no presente da mesma forma que venceu no início de todas as coisas. Nesse sentido, o salmo coloca em contraposição o aspecto político/social do povo com o seu aspecto mítico/religioso. O penúltimo versículo desse capítulo é esse que dá título ao texto. Em seu contexto, quer promulgar a soberania de Deus sobre toda a terra e, consequentemente, sobre os inimigos de seu povo.

Ao trazermos tal versículo para nossos dias, acredito que seja possível pensarmos em duas atitudes possíveis diante dele: uma a ser evitada e outra a ser treinada. A primeira atitude, que deve ser evitada, é a de se cair em uma espécie de fatalismo, ou seja, acreditar que todas as coisas já estão determinadas por Deus e, portanto, a única coisa que devemos fazer é nos aquietarmos e esperá-lo fazer algo para a resolução de nossos problemas.

Esse tipo de atitude, muito comum em meios cristãos, faz com que muitas pessoas simplesmente ignorem as suas responsabilidades frente às diversas decisões da vida, ou nos envolvimentos em questões políticas e sociais. Em outras palavras, toma-se o termo “aquietai-vos” como sinônimo de “sejam inertes, porque Deus resolverá todos os problemas de vocês”, o que não tem nada a ver com o sentido do termo, nem em seu contexto original, nem à luz de todo o texto bíblico. Muito pelo contrário, as Escrituras mostram que Deus não fará aquilo que cabe ao ser humano fazer, sendo portanto, nossa responsabilidade agirmos para a transformação de nossas vidas e da sociedade na qual estamos inseridos.

A segunda, que deve ser treinada, é a prática desse aquietar-se. Uma vez compreendido que tal imperativo não se trata de acomodação, mas de tranquilização, aprender a se tranquilizar por crer que Deus está ao nosso lado é um desafio constante.

Em uma sociedade que vive em um ritmo frenético, na qual a todo momento somos cobrados para termos algum tipo de produção no trabalho ou no meio acadêmico, além das seduções de um mundo digital e de redes sociais, que grande parte de nós somos incitados/as a todo momento com um novo stories, um novo vídeo no canal que seguimos, ou uma notificação que chega no nosso celular, aquietar-se se torna ainda mais difícil.

Tranquilizar o coração para, então, podermos ouvir tanto a nós mesmos quanto àquilo que Deus quer nos falar não é algo simples. Como todo hábito, exige um treinamento constante para que se faça parte de nossa rotina.

Nesse sentido, esse pequeno versículo coloca para nós um desafio de nos tranquilizarmos sem desistirmos ou nos acomodarmos. Em meio a todo o caos que vivemos e dos problemas nos quais muitas vezes somos inseridos, saber que Deus caminha conosco e está ao nosso lado deve nos fazer ficar tranquilos e confiantes de que o mal não tem a última palavra. Antes, aquele que caminha conosco se mostra como refúgio e fortaleza, socorro bem presente na hora da angústia, como bem mostra o primeiro versículo desse mesmo salmo.

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