Teologia do medo e teologia com medo

Teologia do medo e teologia com medo

Photo by Anderson Rian on Unsplash


Hoje em dia ainda se fazem muito comuns uma teologia do medo e uma teologia com medo. A primeira é muito presente em ambientes fundamentalistas. Trata-se daquele tipo de teologia que usa o medo para manter as pessoas reunidas sob determinada liderança. Nesse tipo de discurso o que se faz mais presente são as famosas listas do que se pode e do que não se pode ser feito, dando mais ênfase, logicamente, àquelas que não se pode fazer por serem consideradas como carimbo de entrada no inferno. Para sustentar tais considerações, tomam-se versículos bíblicos tirados de seus contextos e fazem todo um corpo doutrinal em cima deles.

Uma vez que a partir de um texto isolado qualquer doutrina pode ser construída, a lógica é tomada como o grilhão que prende as pessoas a esse corpo doutrinal. Afinal, uma vez se aceitando a premissa teológica colocada por determinada liderança, tudo que se segue logicamente dela deixa qualquer pessoa obrigada a admitir que aquela doutrina deve ser obedecida como vontade divina. Não é de se espantar, portanto, que a teologia do medo seja muito útil a pastores/as charlatães na contemporaneidade. O medo e a lógica criada que o fomenta sempre foram instrumentos fortes para dominação de massas e não é diferente em alguns ambientes que se dizem cristãos.

Por outro lado, vemos também um outro tipo de teologia hoje em dia, que é a teologia com medo. Essa, por sua vez, é percebida quando encontramos uma atitude teológica que se fecha sobre si mesma por ter medo de encarar os problemas que o mundo contemporâneo traz. Esse tipo de fazer teológico ainda se faz muito presente na vida de muitos teólogos e teólogas da atualidade. No lugar de estarem atentos e atentas às novas demandas que o mundo hodierno lança à teologia, preferem se esconder nas fórmulas prontas e já consolidadas, por medo de receberem algum tipo de sanção ou, até mesmo, serem considerados/as hereges por parte da liderança à qual estão subordinados/as.

Mesmo que haja teólogos e teólogas conservadoras que fazem teologia nesse viés e buscam responder questões contemporâneas com as velhas chaves do passado, isso não quer dizer que sejam medrosos/as. Muitas vezes, em tais teólogos e teólogas se encontram muita coragem e honestidade teológica para, a partir de uma leitura conservadora, propor respostas, ainda que prontas, para as questões de nosso tempo. Que sejam boas respostas, daí é outro problema que não é objeto desse artigo.

Neste texto, refiro-me aos teólogos e teólogas progressistas, que mesmo tendo boas ideias e respostas novas, têm medo de expô-las por causa das diversas sanções que podem receber por parte de seus/uas superiores/as. Nesse caso, é a própria estrutura a responsável por sustentar, e até mesmo fomentar tais teologias que são feitas por pessoas com medo de serem descobertas, ou de terem que prestar contas diante de algum concílio ou algo do gênero.

Nesses cenários, é importantíssimo que a teologia se torne cada vez mais pública e feita por pessoas de diversos ambientes. A necessidade de um saber teológico que seja feito a partir de fora dos lugares já consolidados da teologia é fundamental para que um novo frescor possa soprar nas antigas estruturas teológicas que muitas vezes, por serem já consolidadas, tornaram-se como muralhas que intentando proteger determinada cidade, na verdade, impede que ela veja que há muito mais coisas do lado de fora que podem ser úteis para a melhoria de sua própria condição.

No lugar de uma teologia do medo não se deve entrar uma teologia com medo, mas, em substituição a essas duas, deve ser possível uma teologia amorosa e pública, que olhe tanto para fora quanto para dentro do ambiente em que é feita e, a partir das questões que são postas por esses dois lados, proponha novas respostas que tragam refrigério para as pessoas, tanto de dentro dessas estruturas, como para as que não pertencem a ela.

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