Tabus: a necessidade de uma teologia corajosa

Tabus: a necessidade de uma teologia corajosa

Photo by Aaron Burden on Unsplash


Quem já se encontra no meio cristão há algum tempo já deve ter percebido a grande dificuldade que a igreja tem em lidar com alguns temas. Os chamados temas espinhosos, tais como homossexualidade, aborto, eutanásia, dentre tantos outros, costumam gerar calorosos debates onde quer que sejam postos.

Esses temas tabus, se quisermos colocar uma categoria neles, muitas vezes receberam tal nome por causa de abordagens e exegeses conturbadas realizadas ao longo da história do cristianismo, ou via de regra, baseadas em leituras literalistas do texto bíblico, ou ainda, devido a tentar levar temas que são da contemporaneidade para textos que forma escritos fora dela e em um contexto totalmente adverso a ela.

Que uma leitura literalista do texto bíblico leve a exegeses conturbadas e faça com que determinado texto seja retirado de seu contexto para caber naquilo que se quer dizer parece ser bastante claro para alguém que estude tanto a história do cristianismo, quanto para alguém que esteja atento ao que acontece em diversos meios cristãos.

Por outro lado, há aqueles e aquelas que ficam em cima do muro. Se em alguns temas adotam certa literalidade, em outros pressupõem uma “hermenêutica mais contemporânea”, como se o texto bíblico fosse um self-service, em que se escolheria qual melhor combinação desejaria para que a refeição fosse agradável a quem a comesse. Nesse sentido, não é estranho que determinadas pessoas considerem que a fala de Paulo que diz que o escravo deve obedecer em tudo a seus senhores não seja aplicada hoje, porque deve ser vista dentro do contexto em que Paulo vivia, no qual a escravidão era uma prática aceitável, mas ao mesmo tempo, condenam, com base nos mesmos escritos paulinos, a homossexualidade, conceito que nem existia na época de Paulo.

Da mesma forma, condenam a poligamia, algo completamente comum e aceitável nas culturas do mediterrâneo nos tempos antigos (e em alguns lugares, até hoje), inclusive até mesmo autorizada por Javé na sociedade de Israel e Judá, mas não condenam o uso de roupas de tecidos diferentes, conforme consta no texto de Levítico. Ou seja, o que era autorizado por Javé não é aceito por causa da cultura Ocidental, e o que não era autorizado por Javé se torna aceito, pois lido sob a ótica de que tal texto deve ser lido dentro da cultura daquele tempo.

Assim, o tipo de leitura self-service do texto bíblico, a meu ver, mostra-se como um dos mais desonestos e perigosos que se pode fazer. Ao se escolher com base em preconceitos arraigados o que é válido e não é válido no texto bíblico, as consequências são dolorosas, principalmente para os grupos não hegemônicos dentro da esfera cristã.

Um dos princípios da boa hermenêutica é adotar os mesmos princípios para todo o texto. Nesse sentido, se alguém escolhe fazer uma leitura literalista do texto bíblico, não há problema, desde que todo texto lido seja abordado de maneira literal. O que não tem como é começar com uma leitura literalista e depois passar para uma leitura contextual, intercambiando a bel prazer qual leitura prefere para aquele texto. Além de desonesto intelectualmente, gera o famoso self-service sobre o qual falamos acima.

Diante desse cenário, algo especialmente importante para a teologia cristã atual é ser capaz de lidar com os temas que se tornaram tabus ao longo da história, sem medo de propor novos entendimentos e compreensões, sempre tomando por base o ensinamento e a pessoa de Jesus que, na perspectiva cristã, deveriam ser a chave hermenêutica de todo texto bíblico.

Nesse sentido, a teologia é chamada a ser corajosa e sem medo de ser subversiva, lembrando-se sempre de que, baseada no exemplo de Jesus, deve servir para elevação da dignidade humana. Afinal, a partir dos Evangelhos podemos concluir facilmente que nada de ordem religiosa deve ser colocado acima do que é humano.

Assim, se a teologia, os rituais, os cultos, ou o texto bíblico se tornam instrumentos de opressão e morte, automaticamente, deixaram de anunciar a boa nova do Reino de Deus que tem como primazia o amor que liberta e gera vida.

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