Teologia hermenêutica como força contra os fundamentalismos.

Teologia hermenêutica como força contra os fundamentalismos.

Photo by Mimi Thian on Unsplash


Vivemos em um mundo pós-cristão. Em outras palavras, não é mais o cristianismo aquele que dita as regras da sociedade, ou aquele que determina o que é certo e errado para o mundo conhecido. Embora esse fato já esteja presente desde a Modernidade, tendo como marco a Revolução Francesa de 1789, ainda hoje vemos muitas pessoas, principalmente de vieses fundamentalistas, tentando impor o cristianismo goela abaixo na sociedade, considerando o texto bíblico mais importante do que as Constituições de seus países.

Embora a questão fundamentalista seja grandemente falada em tempos atuais, algo que também precisa ser considerado, e que a meu ver também contribui para o crescimento da adesão a tais movimentos, é a grande dificuldade que a teologia ainda tem em se comunicar com a sociedade contemporânea.

De certa forma, em muitos lugares os discursos e os ensinamentos teológicos também não saíram da época da cristandade. Estão ainda lá, presos à sua forma de falar, aos seus termos bastante específicos e que só fazem sentido para aqueles e aquelas que fazem parte desse círculo. Em outras palavras, é comum que grande parte da teologia tenha aceitado o processo de secularização na divisão entre Igreja e Estado, mas não tenha aceitado a secularização em sua forma de falar, tentando, muitas vezes, manter-se presa em uma linguagem que já não alcança a sociedade contemporânea.

Isso significa que tal teologia deva deixar de usar seus termos técnicos, consolidados ao longo do tempo? Claro que não. No entanto, torna-se extremamente importante que o labor teológico, principalmente por parte dos teólogos e teólogas acadêmicas e profissionais, vise trazer tais termos técnicos de uma maneira que se torna compreensível para homens e mulheres de nosso tempo.

Esse movimento, conhecido como parte de uma teologia hermenêutica, tem como ponto de partida o fato de que a mensagem do Evangelho precisa ser uma mensagem que faça sentido em nossos dias. Sem isso, o discurso se torna vazio e, não raras vezes, mitológico, de maneira que não alcança a sociedade, ao mesmo tempo em que se torna incompreensível até mesmo para aqueles e aquelas que estão dentro das comunidades de fé.

Claramente, não desconsideramos que a teologia avançou muito nesses últimos anos. São diversas as tentativas de tornar a teologia pública, acessível e de melhor compreensão para homens e mulheres de nosso tempo. Contudo, tal esforço nunca deixa de ser necessário, uma vez que a teologia cristã deve sempre partir do princípio que sua mensagem precisa de constante atualização de linguagem para que se torne boa nova para aqueles e aquelas que a escutam no hoje da história.

Por que tal deficiência no falar da teologia contribui para a adesão aos movimentos fundamentalistas? Sem o intuito de se fechar tal questão, até mesmo porque tal realidade seja bem mais complexa, creio que podemos dizer que um dos pontos que contribui para isso é perceber que o discurso muitas vezes incompreensível de grande parte de teólogos e teólogas profissionais gera nas pessoas a sensação de que nunca poderão entender tal discurso, ou de que ele seja profundo demais, ou filosófico demais para ser compreendido, o que gera grande desânimo e, não raras as vezes, certo sentimento de inferioridade. Tal sensação, aliada ao desejo de servir a Deus sem muitas vezes saber como fazê-lo, mostra-se como um prato cheio para os discursos fundamentalistas, caracterizados por suas regras e suas listas de pode e não pode claramente definidas, o que traz segurança numa sociedade que perdeu diversos de seus marcos referenciais.

Diante desse cenário, mostra-se necessário que esse exercício de se fazer uma teologia hermenêutica seja constante, de maneira que as boas novas anunciadas por Jesus façam sentido em nossos dias, libertando pessoas das ciladas dos discursos fechados em si mesmos, tais quais são os discursos fundamentalistas.

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