O Senhor realizou grande façanha

O Senhor realizou grande façanha

Na volta do Senhor com o que voltavam a Sião, pensávamos estar sonhando. Então a nossa boca estava cheia de riso e a nossa língua gritava sua alegria; então se dizia entre as nações: “Por eles o Senhor realizou grande façanha” (Sl 126;1-2).
Este pequeno trecho do Salmo 126 não é estranho para a maioria das pessoas que tem contato com o texto bíblico ou que frequentam alguma missa, reunião de oração, ou cultos dominicais. Com grande probabilidade, em algum momento o leitor ou a leitora do Dom Total já ouviu alguma homilia ou pregação que aborde esse texto. O contexto dele também é conhecido: trata-se de alguns dos conhecidos cânticos de subida na tradição do povo de Israel, os quais o povo cantava quando seguia em direção ao templo para a adoração a Deus.
Neste cântico do Salmo 126, por sua vez, o povo faz lembrança da libertação dos cativos, os quais Deus libertou do domínio da Babilônia, trazendo-os de volta à sua terra. O período de exílio na Babilônia foi duro para o povo de Judá, que se viu em muitos momentos desamparado e acreditando que Deus havia se esquecido dele. O salmista, por sua vez, em seu poema quer trazer algo a mais: Deus não somente não se esqueceu do seu povo, mas também, após a sua libertação, é aquele que caminha com ele em sua volta para a sua terra.
Relembrando a própria experiência do Êxodo, na qual o Senhor caminha de dia e de noite conduzindo seu povo a Canaã, aqui também o salmista mostra que o mesmo Deus que tirou o povo do Egito continua com sua fidelidade ao caminhar com seu povo na volta do exílio da Babilônia. Em outras palavras, essa primeira estrofe do poema, restaura uma das primeiras experiências que o povo de Israel tem com seu Deus, que é o de ser libertador. Ele é aquele que tira seu povo da escravidão e o conduz a uma nova vida; que no lugar da dor promove a alegria e que no lugar da tristeza coloca cânticos de júbilo.
Ao mesmo tempo, o salmista ressalta que Deus caminha com seu povo ao conduzi-lo à sua terra. Ele não somente o liberta da escravidão, mas caminhando, sustenta-os e conforta-os ao longo do caminho. Ressalta assim a Shekinah de Deus, ou seja, a presença Dele junto ao seu povo.
Os Evangelhos, por sua vez, ao falar sobre o Filho de Deus, o Messias prometido, o libertador que Deus prometeu para a humanidade, mostram-no da mesma forma, ou seja, como aquele que liberta da escravidão, que caminha com o seu povo e que o conforta em meio às tribulações. Contudo, agora de uma maneira ainda mais profunda: a libertação que se dá é a libertação da morte, do total afastamento de Deus; o caminhar de Deus com seu povo não se trata somente de um percurso para levar a uma terra física, antes, um caminhar junto com a existência humana, mostrando que a libertação da morte traz a alegria do viver e a capacidade de se alegrar em um mundo que jaz em um sistema mau e de morte, visto que ele já foi vencido porque Deus toma a iniciativa na luta contra ele.
Nesse sentido, os evangelistas dizem, juntamente com o salmista, que o Pai realizou por nós grande façanha. A libertação da morte e sua presença constante nos fortalecendo e alegrando, mesmo que estejamos em um sistema mal, revela, por meio de Jesus, um Deus que é Pai e é Amor. Portanto, que caminha conosco, fortalecendo-nos para que possamos ser cada dia mais parecidos com nosso irmão mais velho.

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