A teologia precisa viajar mais

A teologia precisa viajar mais

Photo by mohammad alizade on Unsplash


Todos e todas nascemos em algum lugar nesse universo e, consequentemente, nascemos também dentro de uma comunidade própria, com seus valores e conhecimentos que são passados de geração em geração, formando, assim, uma cultura específica. Essa cultura, da mesma forma, é permeada por uma linguagem que lhe confere sentido e, ao mesmo tempo, se constrói a partir dessa mesma cultura.

Claramente, nesse pequeno artigo não se pretende fazer um tratado sobre a linguagem e a cultura e a estreita relação que há entre uma e outra. Para isso, já há excelentes trabalhos nos dois campos. O que aqui se gostaria de ressaltar é que determinada cultura possui sua linguagem própria.

Isso pode ser percebido, por exemplo, quando se viaja para algum país diferente do seu, no qual a língua é diferente. Ali muitas vezes é possível perceber que a maneira de denotar determinada situação é totalmente diferente da forma com que estamos acostumados a fazer e, em algumas línguas, até a ordem em que determinada frase é construída mostra uma diferença impressionante que, ao tentarmos traduzir ao pé da letra, tal sentença se torna sem sentido algum em nossa língua nativa. Por este motivo, é sempre desejável que ao se viajar para determinado país se tenha algum conhecimento das línguas faladas naquela localidade, de maneira a conseguir se comunicar no país de destino.

Embora possa parecer não haver relação nenhuma, quando pensamos isso no campo da teologia e sua relação com o mundo, tal compreensão se mostra extremamente importante. Afinal, a teologia tem sua linguagem própria, sua forma de dizer as coisas, seus termos que são importantes para, dentro da sua comunidade, expressar algo sobre as relações do divino com a humanidade e com o cosmos e essas entre si. Todo teólogo e toda teóloga geralmente sabe lidar muito bem com esse vocabulário e, dentro desse arcabouço, tais termos fazem sentidos e se mostram até mesmo definidores de certa ortodoxia ou heterodoxia.

No entanto, quando a teologia intenta fazer essa viagem, de sair de sua comunidade própria e ir para outra, é importante ter em mente que é necessário tentar compreender a língua falada na comunidade para onde se vai. Seja na questão do idioma, seja na questão cultural. Seria cômico pensar que determinada pessoa saia do Brasil para conhecer a China sem ter conhecimento de nenhuma outra língua que não seja a portuguesa. Salvo se for para Macau, sua experiência com certeza se mostrará bastante desesperadora, tendo que contar com a benevolência de estrangeiros para conseguir, até mesmo, sair do aeroporto.

Se diante dessa situação hipotética não é difícil encontrar quem concorde com isso, por que, afinal de contas, a teologia cristã insiste, muitas vezes, numa linguagem que não faz mais sentido na sociedade contemporânea? Por que a insistência nos ritualismos e nos dogmas herméticos, que são por muitas pessoas ditas como sagrados ainda que sirvam somente para violentar a dignidade humana?

Sem a disposição para aprender a língua da sociedade na qual está inserida, nem a disposição para se abrir a novos aprendizados que toda nova cultura proporciona, a teologia corre o risco de se tornar uma velha senhora que, por medo de ter sua casa roubada, decidiu nunca sair dela, acreditando que o mundo era somente aquilo que conseguia ver pela sua janela.

Rever a linguagem teológica, de maneira que ela faça sentido para a sociedade de hoje e toque a existência humana é tarefa para teólogos e teólogas de nosso tempo. Não que seja fácil, mas quem disse que assumir a encarnação como modo de vida seria algo simples? Bom, não foi Jesus.

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