Vigiai: um conselho aos esperançosos

Vigiai: um conselho aos esperançosos

Photo by Joanna Kosinska on Unsplash


O mês de dezembro é um mês muito caro a todas as pessoas cristãs, independentemente da tradição a que pertencem: sejam católicas, protestantes ou ortodoxas, nesse mês se celebra o nascimento de Jesus Cristo. Diante disso, é comum que em todas essas tradições se celebre o advento. Nas duas primeiras semanas do mês refletimos sobre a esperança cristã da parusia, ou também conhecida como 2ª vinda de Cristo e nas duas últimas semanas sobre o nascimento do Messias, conforme narrado nos Evangelhos.

O tema da vigilância aparece no texto bíblico quando Jesus fala a seus discípulos a respeito de sua segunda vinda. Nesses textos, uma vez que pertencem ao gênero apocalíptico, Jesus se utiliza de diversos símbolos para falar a respeito das últimas coisas e, por isso mesmo, tais símbolos precisam ser decodificados para que possam compreendidos.

Um dos temas recorrentes nos evangelhos sinóticos é o tema da vigilância. Em todos, aparece a famosa frase, mesmo que com algumas variações: “Vigiai, porque não sabeis nem o dia nem a hora em que virá o Filho do Homem”. Esse conselho de Jesus muitas vezes foi usado para instaurar o medo em fieis. Afinal, lendo o texto de maneira literal o que se tem é um evento cataclísmico, no qual o céu será abalado, haverá chuva de meteoros sobre a terra, tudo pegando fogo e um caos generalizado para que, dos céus, se veja o Filho do Homem vindo com poder e glória para colocar um fim na história. Nesse contexto, ai daquele e daquela que não vigia, uma vez que serão castigados por não cuidarem dos bens do senhor da casa.

Não precisamos de muito esforço para compreender porque esse tipo de mensagem gerou e ainda gera tanto temor para muitos cristãos ainda hoje e uma espécie de “cobrança de santidade” se faça presente em diversas igrejas e comunidades cristãs espalhadas pelo mundo.

No entanto, compreender o tema da vigilância não deveria causar medo ou espanto. Vigiar é observar com atenção, estar atento a algo ou a alguma pessoa. Nesse sentido, aquele e aquela que vigia é uma pessoa que presta atenção e está focada naquilo que deve fazer, sendo o foco uma das características principais quando falamos de vigilância. Com isso em mente, o conselho de Jesus deve ser compreendido como instrução para que, como seus discípulos e discípulas, estejamos atentos aos sinais dos tempos e àquilo que eles mostram. Se, o Filho vem de maneira que ninguém percebe e em hora que ninguém espera, então somente os que estão atentos e atentas são capazes de acolher a sua chegada.

Longe de ser uma espécie de advinhação do futuro autorizada, estar atento aos sinais dos tempos visa capacitar-nos a manter a esperança de que o Senhor da casa há de chegar. Aqui, a imagem de Noé apresentada em Mateus 24,37-39, se mostra importante. Voltando ao mito do dilúvio é possível perceber que este veio por causa da maldade humana. Noé, homem justo, foi chamado por Deus para construir um espaço de preservação de vida no meio do caos que haveria de vir sobre a terra, fruto do pecado da humanidade. A arca, nesse sentido, representa tanto o cuidado de Deus, quanto a esperança de que, no meio de todo caos, Deus não havia abandonado os que praticam a justiça. Em outras palavras, a justiça de um ser humano é suficiente para que o mundo não pereça.

Vigiar e ter esperança se mostram, então, intimamente ligados. Somente aquele que tem a esperança de que o senhor da casa há de chegar é capaz de vigiar. Nesse sentido, o conselho para a vigilância não tem a ver com o medo da punição, mas com a manutenção da esperança de que, mesmo nos momentos escuros e de trevas pelos quais passamos, devemos nos manter atentos à prática da justiça e naquilo que fomos chamados a fazer para o Reino de Deus porque temos a esperança que, em algum momento, o Filho chegará e um novo dia chegará sobre a humanidade.

 

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