Características de ação dos movimentos fundamentalistas religiosos

Características de ação dos movimentos fundamentalistas religiosos

Photo by Tim Trad on Unsplash


Um dos grandes fenômenos que vemos em nossa contemporaneidade é o crescimento do fundamentalismo religioso. Isso não quer dizer que tal fenômeno seja algo do tempo presente e que surgiu somente agora. Muito pelo contrário, ao longo de toda a história sempre houve tais movimentos que reivindicavam para si o conhecimento pleno da vontade divina para a sociedade. Contudo, uma pergunta que sempre se faz é: afinal, por que em pleno século 21, tais movimentos que se mostram extremamente limitadores ainda crescem? O que leva diversas pessoas a aderirem esses movimentos? Essas perguntas, por sua vez, não são tolas e devem, sim, fazer-nos pensar sobre tais posturas. Neste pequeno artigo gostaria de elencar quatro características que considero basilares para a compreensão dos modos de ação dos movimentos fundamentalistas de matrizes religiosas, tentando, de alguma forma, responder a essas perguntas.

A primeira característica dos fundamentalistas religiosos é a acusação de que a sociedade perdeu a moralidade, o que faz com que ela esteja corrompida. A moralidade é um dos grandes motores dos fundamentalismos religiosos. Esse discurso de moralidade, por sua vez, é baseado geralmente em algum texto considerado sagrado e de origem divina. Dessa forma, a desobediência a essas normas escritas gera a depravação da sociedade e, consequentemente, fomenta os problemas morais. O discurso da perda da moralidade traz junto de si tanto o discurso catastrófico de que alguma coisa acontecerá à sociedade caso tal moralidade não volte aos eixos, quanto a afirmação de que a ira divina alcançará os imorais, fazendo com que toda sociedade pague o preço dessa desobediência.

Esses discursos, gerando o medo, vendem também a possibilidade de segurança, uma segunda característica marcante dos movimentos fundamentalistas religiosos. A busca de segurança faz parte da vida de todo ser humano e tudo que ameaça tal segurança gera em nós uma sensação ruim, fazendo-nos buscar algum porto seguro no qual não correremos risco. Diante da suposta catástrofe que virá sobre todos e todas, os movimentos fundamentalistas religiosos oferecem justamente tal porto. Esse porto se dá a partir da obediência ao texto ou leis sagrados, de maneira que é anunciado que toda pessoa que obedece à lei divina tem a segurança de que o mal anunciado não a alcançará, podendo repousar em paz porque merece tal conforto por obedecer às ordens divinas.

Tais textos sagrados, porém, são tomados em sua literalidade, o que nos remete à terceira característica desses movimentos. O texto bíblico, talvez, seja o mais emblemático para compreendermos como isso se dá. Os movimentos fundamentalistas cristãos, em sua maioria, tomam a Bíblia em sua literalidade e acreditam que tudo que está escrito nela é algo dito ipsis literis por Deus. Assim, se a Bíblia diz não é não, se diz sim é sim e não há muito o que se conversar. Esse tipo de leitura, além de tirar o texto do seu contexto, serve de pretexto para toda e qualquer atrocidade que queira fazer em nome de Deus, algo que a Idade Média mostra muito bem.

Uma vez que tudo isso está posto, fica fácil compreendermos uma quarta característica: a clara definição dos amigos e dos inimigos da divindade. A pessoa obediente é amiga e a desobediente é inimiga. Essa definição, que se dá por parte das lideranças de tais movimentos, visto que se consideram conhecedores e aplicadores das “verdades” contidas na literalidade do texto, é responsável pela imposição da ordem necessária desejada pela divindade, o que retorna à primeira característica que mencionamos.

Em uma sociedade em que se percebe a perda de alguns marcos tradicionais, na qual tudo corre o risco de se reduzir a mero jogo de linguagem, na qual tudo está desconstruído e quase já não se encontra algo a ser chamado de verdadeiro, ético, ou universal, é comum que pessoas se sintam inseguras e carentes de respostas diante do mal que acontece no mundo. Tais respostas, por sua vez, os movimentos fundamentalistas dão de maneira muito clara: há algo a ser seguido, pronto e definido e toda pessoa que o faz encontra segurança. Esse tipo de discurso, sem dúvida, é extremamente tentador, sendo, a meu ver, um dos motivos pelos quais tais movimentos fundamentalistas crescem em nosso mundo. Claramente, não podemos esquecer os fatores econômicos e sociais que fomentam tais movimentos, mas este texto ficaria muito grande se abordássemos essa questão neste momento.

Sem querer esgotar o tema, considero importante tentar compreender esses passos num momento em que movimentos fundamentalistas religiosos crescem ao redor do mundo e se infiltram nos lugares de poder em diversas sociedades. Estar atento a isso e denunciar tais atitudes se mostram como tarefas teológicas, da qual todo teólogo e toda teóloga não deve se furtar de fazê-lo.

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