A leitura infantilizada da Bíblia

A leitura infantilizada da Bíblia

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Uma das coisas mais comuns em nossos dias, principalmente no meio cristão, é a leitura infantilizada do texto bíblico. Não dificilmente vemos ou ouvimos pregações, palestras, e até mesmo pseudoestudos que tratam as diversas narrativas das Escrituras de uma maneira simplista e literal, não conseguindo extrair dali qual a mensagem que o autor do texto quis passar.

Esse tipo de leitura, por sua vez, além de trazer grande mal para a sociedade, uma vez que pegar um texto fora do seu contexto é sempre usá-lo com algum pretexto para se dizer o que quiser, também faz com que a compreensão dos ricos ensinamentos que constam ali sejam colocados em segundo plano, o que, sem dúvida, coopera para a vivência de um cristianismo sem sentido e, muitas vezes, desconectado da realidade.

As leituras infantilizadas do texto bíblico são caracterizadas como aquelas que não conseguem aprofundar no sentido do texto, ficando somente na superfície do que está escrito. Como exemplos clássicos desse tipo de leitura têm-se as diversas pregações que, baseando-se no mito de Adão e Eva relatados nos capítulos iniciais do Gênesis, tomam-no como algo real e de valor factual, como se no início de todas as coisas houvesse somente um homem e uma mulher responsáveis por popular toda a terra e que, por algum milagre, eles efetivamente conseguem fazer isso. Ou ainda, tratam como real a ideia de que uma serpente tenha falado com uma mulher e ela tenha agido com total normalidade frente a isso e, ainda, conversado com essa serpente que, boa de lábia, conduz a humanidade à desobediência da ordem divina.

Da mesma forma, ao se tomar o mito do Dilúvio, também encontrado nas primeiras páginas do Gênesis, são muitas as pessoas que o leem como fato, imaginando que um homem tenha construído sozinho uma arca (que pela metragem teria 150 metros de comprimento, 25 metros de largura e 15 metros de altura) para colocar toda espécie de animais existentes, em pares, mais sua família, flutuando pelas águas por 40 dias até que as águas baixassem e pudessem sair para, novamente, povoarem a Terra.

Apenas esses dois exemplos servem para mostrar o que uma leitura infantilizada do texto bíblico pode fazer: retirar toda a riqueza simbólica que se encontram nesses mitos usados para ensinamento do povo da Bíblia e, mais ainda, torná-los sem o menor sentido para uma sociedade que passou por uma revolução científica já há algum tempo, como o é a nossa.

Ler o mito da tentação como fato, é não compreender o profundo ensinamento que o autor quis passar de que todo ser humano deve fazer uma opção fundamental entre a obediência a Deus que gera vida (representado pela árvore da vida), ou o conhecimento por meio da própria experiência, que gera a distorção daquilo que Deus deseja para a humanidade (representado pela árvore do conhecimento do bom e do ruim). Da mesma forma, ler o mito do Dilúvio como fato, é perder a linda e profunda mensagem ali contida de que a justiça de um só humano (representado por Noé) é capaz de produzir um espaço de vida e esperança trazido por Deus no meio de todo o caos trazido pelo pecado.

Diante desse cenário, é tarefa de teólogos e teólogas insistirem que o texto bíblico não seja lido e ensinado de maneira infantilizada, o que gera fundamentalismos e propoem uma mensagem cristã sem sentido para pessoas do nosso tempo.

Se naquela época, os autores dessas narrativas já tinham consciência de que os símbolos ajudam a compreender melhor as mensagens que queriam trazer, por que, numa época tão esclarecida como a nossa, ainda se insistem em leituras infantilizadas e literais dos textos bíblicos? A quem esse tipo de leitura serve, senão à dominação por parte daqueles e daquelas que, por meio dessas leituras, conduzem o povo à subserviência?

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