A necessidade de crise na teologia

A necessidade de crise na teologia

Photo by Warren Wong on Unsplash


É muito comum ouvirmos falar de crises. Especialmente no momento atual, no qual um mau governo se instaurou no país, essa palavra é constantemente ouvida nos noticiários, nas análises econômicas e nas questões éticas, sendo categórico entre bons analistas o veredito de que passamos por uma crise.

Por sua vez, o dicionário de filosofia online traz como uma das definições da palavra crise (do grego krisis) o termo “juízo”, entendido “(…)como decisão final sobre um processo e ainda, generalizando, decisão de um acontecer num sentido ou noutro. (…) De um modo geral, crise designa uma fase ou uma situação perigosa, da qual pode resultar algo benéfico ou algo pernicioso para o indivíduo ou para a comunidade que por ele passa um estado transitório de incerteza e dificuldades, mas também cheio de possibilidades de renovação”.

Cabe aqui reter essa característica da definição quando falamos a respeito da teologia. Ao contrário do que muitas pessoas tendem a pensar, as crises não necessariamente indicam algo ruim, mas, como nos mostra o dicionário, é também momento de possibilidades, ainda que marcado pelas incertezas e dificuldades ao longo do processo. Se isso é mantido em mente, então qualquer teologia séria deve se mostrar disposta a entrar nos períodos de crise, naqueles em que ela faz um juízo sobre si mesma, e se coloca em situações perigosas, a fim de repensar sua relação consigo e com o próprio mundo.

Nesse sentido, somente uma teologia em crise é capaz de prosseguir. Do contrário, torna-se fechada em si mesma, confortável no seu lugar seguro, e com suas respostas prontas para todas as novas situações que a sociedade do seu tempo coloca.

Uma teologia que não entra em crise em alguns momentos se torna engessada, esquecendo-se de acompanhar os sinais dos tempos. Quando isso acontece, ao invés de se mostrar como voz a ser ouvida, é vista e percebida como alguém que não tem nada de útil a dizer, como alguém que fala das “eras de ouro”, ou como tola que constantemente pergunta “Por que os dias do passado foram melhores que os de hoje?”

Teologias em crise são fundamentais para a possibilidade de renovação da própria teologia. Se nas relações interpessoais os momentos de crise se mostram como oportunidades para se repensar a vida, as atitudes, os desejos e o sonhos, para a teologia esses momentos se mostram como reveladores de novas maneiras de falar sobre aquilo que foi narrado sobre Deus.

Ao mesmo tempo, faz despontar novos teólogos e teólogas, que estão fora do status quo criado pelos ambientes teológicos e, por isso mesmo, com maior probabilidade de não terem a mentalidade fechada em dogmatismos que, como areia movediça, puxam para dentro deles tudo o que entra em seus territórios (uma armadilha na qual muitos teólogos e teólogas caem ao longo de sua trajetória).

Se nas relações humanas vivenciar crises com coragem é salutar para se obter um crescimento pessoal e relacional, na teologia, que trata como um de seus temas a relação entre o ser humano e Deus, tais crises também se mostram imprescindíveis para o fazer teológico. Passar por elas, então, não deve ser motivo de medo ou temor, mas de confiança e esperança de que, após ela, será possível se ter uma teologia mais depurada que, falando ao seu tempo, torne-se digna de ser ouvida.

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