A fuga do mundo como tara dos fundamentalistas

A fuga do mundo como tara dos fundamentalistas

Photo by dylan nolte on Unsplash


Uma das grandes taras dos movimentos evangélicos de cunho fundamentalista é a fuga do mundo. É muito comum ouvir de diversos pastores e pastoras a máxima de que se deve afastar do mundo de todas as maneiras, ou seja, que não se deve ouvir músicas que não sejam evangélicas, não se deve dançar músicas que não sejam cristãs, não se deve namorar pessoas que não são evangélicas, dentre tantas outras bizarrices que se ouvem em igrejas de cunho fundamentalista.

Embora possa parecer absurdo que muita gente tenha esse tipo de postura, não é difícil encontrar movimentos dentro das igrejas que têm esses mantras muito bem difundidos, servindo de elemento de segregação, principalmente entre adolescentes e jovens.

Como sempre, essas proibições são justificadas tomando o texto bíblico como base. Uma vez que a Bíblia é a mãe de todas as heresias, não é de se espantar que seja o texto escolhido para apoiar tais ensinamentos. Textos como o de 2 Coríntios 6, que afirma: “não vos prendais com jugo desigual com os infiéis” são comumente usados para afirmar que uma pessoa evangélica não deve se relacionar com quem não o é, porque isso seria uma união espiritual errada. Da mesma forma, o lindo ensinamento de Jesus que se encontra em Mateus 5 e que afirma “sois a luz do mundo” é também usado para apregoar que o evangélico ou a evangélica não pode se misturar com as coisas que são mundanas, tais como músicas, bares, boates etc. 

Numa tentativa de amenizar tais proibições, há algum tempo surgiram os movimentos cool no meio evangélico. Igrejas com shows pirotécnicos, baladas gospel, bailes funk gospel etc, na tentativa de trazer essas “coisas condenáveis” para um ambiente “santo”, no qual só se tocava funk, rock, pagode, trance e todos outros gêneros musicais em versões aceitáveis por tais igrejas. Isso seria uma estratégia para que a juventude não se desviasse, mas ao mesmo tempo pudesse aproveitar os gêneros musicais do momento.

Contudo, as pregações e mensagens dessas igrejas continuaram dentro de um viés fundamentalista, incentivando a vida em uma bolha chamada reunião de jovens e adolescentes, nas quais as mesmas proibições e ameaças permanecem, só que agora numa versão remasterizada com o ritmo e a tônica que o jovem quiser. Em outras palavras, muda-se somente a forma, mas o conteúdo de alienação e fechamento ao mundo permanecem.

Esse tipo de postura mostra, no entanto, uma não compreensão da categoria tão cara ao cristianismo que é a encarnação, que longe de ser um evento mágico que acontece em algum tempo distante, deve ser lido como metáfora para o envolvimento de Deus com o mundo e seu importar com ele. Se cremos, pela fé, que Deus assumiu a carne humana em sua radicalidade, então a diferença entre mundo físico e mundo espiritual, entre santo e profano não faz mais sentido, uma vez que o santo entra no profano e o profano entra no que é santo.

Dessa forma, esta separação fundamentalista entre santidade e mundanidade se mostra extremamente perniciosa por tentar fazer crer que servir a Deus é se afastar do mundo.

Compreender a encarnação é compreender que Deus nos quer no mundo, como sal, misturando-se com ele para fazer a diferença e mostrar que o amor de Deus e sua graça ainda chamam a todos e todas para que tenham vida em abundância. Afastar-se do mundo no texto bíblico tem a ver com o se afastar do sistema que gera morte, que promove a desigualdade, a discriminação e o ódio ao diferente. Em outras palavras, afastar-se do mundo não tem a ver com o tipo de música que se escuta ou o lugar no qual se vai, mas tem a ver com viver uma vida que denuncia as injustiças e os sistemas opressores que fustigam a vida dos mais pobres.

Dessa forma, de nada adianta não ouvir músicas seculares, mas discriminar o próximo, ou somente se relacionar com gente cristã, e apoiar políticas de morte contra os fragilizados. Toda teologia é política. Afastar-se do mundo como querem tais fundamentalistas nada mais é do que aceitar o status quo que oprime o pobre e retira dele seus direitos. ,

O ser cristão é chamado a se misturar com o mundo e lutar por sua transformação. Tal como Jesus fez em seu tempo, é tarefa cristã assumir a carne do mundo, ouvir seus clamores, compartilhar de suas alegrias, reconhecendo em toda beleza traços daquilo que é divino e nos humildes o rosto de Deus.

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