Salmo 46: do caos à paz

Salmo 46: do caos à paz

Imagem de Mylene2401 por Pixabay

Esse salmo é conhecido na história protestante como o salmo preferido de Lutero. Dentre os diversos hinos escritos por ele, esse salmo em particular foi o utilizado para escrever seu mais famoso hino, amplamente conhecido, chamado Castelo Forte, escrito por volta de 1521, devido à Dieta de Worms no qual Lutero foi chamado a se explicar diante de Carlos V a respeito de seus ensinos.

Esse salmo, rico em elementos, está entre os considerados “cânticos de Sião”, que exaltam Jerusalém e seu Templo, como lugar da habitação de Javé. O salmo, então, provavelmente pronunciado por um sacerdote no templo, faz uma dramatização da vitória de Javé sobre o caos inicial e a luta contra a antiga serpente marinha, a fim de mostrar que, diante do medo do povo para com seus inimigos, Deus é aquele que garante vitória no presente da mesma forma que venceu no início de todas as coisas. Nesse sentido, o aspecto político/social do povo é colocado em contraposição com o aspecto mítico/religioso.

Da mesma forma, o salmo aponta outro contraste que também remete a esse mito primordial de luta entre Deus e a serpente marinha: as águas turbulentas e agitadas de um lado e o rio tranquilo que é controlado por Deus na sua cidade, na qual Ele mesmo se faz presente no meio dela e traz sua vitória desde o romper da manhã do outro. É sabido que, ao longo do texto bíblico, as águas sempre tiveram o duplo significado que remete tanto ao caos, como também às nações ao redor de Israel. Assim, é muito provável que a paz trazida por Deus representada pelos rios tranquilos do qual fala o versículo 4, esteja em contraste com os levantes das nações contra o povo de Israel nos momentos de guerra. Ao mesmo tempo, o salmista aparenta lembrar que Deus traz a sua vitória de uma maneira efetiva. O uso do termo “ao romper da manhã” faz lembrar aquilo que havia sido relatado tanto em Isaías 37,36, quando da vitória de Judá sobre o domínio assírio representado por Senaqueribe, ou ainda o texto de Êxodo 14,27, quando Deus destruiu o exército de Faraó. Em ambos os textos a intervenção divina não é somente uma expectativa que aconteceria em algum momento futuro, mas que se realiza efetivamente após a noite de angústia.

Por último, o salmo chama outras pessoas a serem testemunhas dos feitos de Deus em favor do seu povo, apontando para o futuro de Seu governo sobre toda a terra, no qual a guerra não mais existirá e todos pararão de lutar (v.8-10). Nesse sentido, Deus é aquele que faz cessar a guerra e que derrota os inimigos do povo, o que, portanto, reitera a mensagem trazida desde o início, de que assim como Javé vence o caos inicial fazendo cessar a guerra contra a serpente marinha, Javé também concede vitória ao seu povo sobre seus diversos inimigos.

Como poesia que é, o salmo também transcende seu tempo servindo de ensinamento para nossos dias. Neste momento tão conturbado pelo qual nossa sociedade passa, fruto tanto do mau governo que temos, quanto das atitudes irresponsáveis de várias pessoas de nossa comunidade, é comum também o sentimento de que o caos se aproxima e de que não é possível escapar dele e o medo, muitas vezes, vem como assombro. Nesse sentido, o salmista nos traz à memória o que pode nos trazer esperança: de que Deus é refúgio e fortaleza sempre presente e disposto a auxiliar seu povo nos mais profundos desesperos pelos quais passa. Essa ação, porém, não é de longe como muitas pessoas tendem a crer, mas se mostra efetiva e de perto, uma vez que como o salmista insiste, Deus é aquele que caminha junto com o seu povo, fortalecendo e provendo sua libertação diante dos diversos desesperos e angústias da vida.

Com isso em mente, é possível, ainda hoje crer que aquele que venceu todo o caos continua sendo o nosso refúgio e fortaleza caminhando conosco em todos os momentos, de maneira que é possível testemunhar a libertação que nos alcança para que, através de nós, essa libertação possa também alcançar a todas as pessoas.

Texto dedicado ao querido companheiro de caminhada e biblista Marcos Lima, com quem tenho aprendido muito nesses últimos anos.

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