Teologia da Esperança: algo a se lembrar em situações de crise

Teologia da Esperança: algo a se lembrar em situações de crise

Imagem de sspiehs3 por Pixabay 

Em 1964, Jürgen Moltmann, teólogo reformado luterano escreveu um dos livros que até hoje se encontra entre os mais importantes da teologia do século XX. Esse livro, cujo título é Teologia da Esperança, quis mostrar, conforme indica em seu Prefácio “como a Teologia pode lançar-se a uma nova reflexão, tomando impulso da Esperança em perspectiva escatológica”.

O autor não é um teólogo de gabinete. Tendo lutado na guerra do lado alemão, foi capturado pelo exército inglês, tendo sido prisioneiro durante os de 1945-1948. No acampamento de Norton Camp foi onde teve seu primeiro contato com a teologia enquanto disciplina de estudo em 1946. Após certo tempo concluiu seu doutorado na Universidade de Göttingen, em 1952 e pastoreou uma comunidade reformada de Bremen-Wasserhorst. Ali, segundo Moltmann, surgiu um novo círculo hermenêutico, entre a interpretação do texto e a experiência de comunhão de pessoas nas suas famílias e no seu trabalho[1]. Em 1958 começa a lecionar na Escola Superior Eclesial de Wuppertal, local onde nasce o livro Teologia da Esperança. Este, escrito no período de pós-guerra, em uma sociedade alemã totalmente devastada e com sentimento de apatia frente ao seu futuro, visa falar de uma teologia da esperança em resposta à filosofia da esperança anteriormente escrita por Ernst Bloch.

Para Moltmann, falar de escatologia cristã é falar da esperança e não de um mundo celestial a que se espera de maneira passiva como comumente pregado em seu tempo (e ainda hoje, por sinal). Essa perspectiva, por sua vez, parte do texto bíblico. Nele, desde o Antigo Testamento, Deus se apresenta como aquele que cumpre suas promessas e caminha no meio do seu povo, sendo este o motivo da esperança do povo de Israel frente às diversas dificuldades pelas quais passa.

De igual modo, a esperança cristã fortemente ancorada na esperança do povo de Israel tem em Jesus Cristo aquele que tanto é o cumprimento da promessa de Deus ao seu povo, como também aquele que aponta para a nova criação de todas as coisas, para a plenitude dos tempos, no qual Deus será tudo em todos. Essa esperança, por sua vez, não deve ser vista como algo que somente espera. Muito pelo contrário, por meio da ressurreição de Cristo, que se revela como o início da nova vida na qual a morte não tem mais a última palavra, vivemos agora na esperança do novo reino que há de vir, do qual Cristo é a primícia. Assim, essa esperança muda nossa forma de ver o mundo. Afinal, tendo experimentado a nova vida de Cristo e estando em um mundo que jaz no maligno, a percepção de que este mundo não é aquele que Deus deseja gera na pessoa que teve esse encontro com o ressuscitado a motivação para o anúncio do Reino que há de vir. Esse anúncio, por sua vez, manifesta-se nas ações efetivas de transformação da sociedade e visa à geração de vida própria do Espírito que brota do evento da crucificação/ressurreição de Cristo. Nesse sentido, a esperança motiva a luta por uma sociedade mais justa e igualitária por reconhecer nesses valores as nuances do Reino de Deus que há de vir.

Trazendo para nossa situação atual em tempos de pandemia, nos quais as questões da desigualdade social, saneamento básico, saúde pública etc têm se mostrado de forma latente e gritante, a teologia da esperança de Moltmann ainda pode contribuir muito para um agir cristão comprometido com o Evangelho.

Em primeiro lugar, porque resgata a importância de uma ação efetiva de transformação social. A luta cristã pela igualdade social e em favor dos desfavorecidos é algo bíblico e nesse momento deve continuar sendo uma das principais bandeiras da fé cristã. Em segundo, essa teologia da esperança mostra um Deus que caminha com seu povo, habitando no meio dele. Diferentemente dos antigos deuses daquele tempo que não se importava com os humanos, o Deus bíblico se mostra como aquele que se faz presente e sofre junto com ele. A fé cristã, da mesma forma, mostra um Deus que é Pai, assume a humanidade e sofre conosco os diversos sofrimentos pelos quais passamos.

Em momentos como este em que estamos, ter a consciência de que a morte não tem a última palavra e que Deus caminha conosco se mostra como motivadoras para que mantenhamos a esperança. Não uma esperança que se confunda com expectativa, na qual pensamos que Deus fará tudo o que queremos. Antes, uma esperança bíblica, que nos faz confiar que o mesmo Deus que caminhou no deserto e esteve com Jesus em sua morte e ressurreição também caminha conosco hoje, consolando-nos e dando seu apoio nos momentos difíceis. Ao mesmo tempo, é uma esperança que nos motiva a permanecer firmes, fazendo o que temos que fazer para vencer esse momento difícil: ficar em casa e pressionar os governantes para que, ouvindo a ciência e os especialistas da área, mantenham o isolamento social e promovam auxílio financeiro para as pessoas pobres do país.


[1] MOLTMANN, Experiências de reflexão teológica, p. 18

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