E se formos expulsos novamente do paraíso?

E se formos expulsos novamente do paraíso?

A semana passada foi bem traumática em diversos aspectos no que tange às questões ambientais. Na mesma semana em que se completou um ano do crime da Vale em Brumadinho, que gerou a morte de centenas de pessoas por causa das quedas das barragens, também se viu uma das maiores, senão a maior, de todas as chuvas em Belo Horizonte. Diversos lugares na cidade ficaram alagados, casas foram perdidas, comércios prejudicados, pessoas ficaram desabrigadas e perderam tudo que tinham e hoje estão precisando de auxílios para suprir necessidades básicas.
Esses fatos, que não são meras coincidências, revelam algo para o qual diversos cientistas já têm alertado há algum tempo: que a deterioração e exploração infindável dos recursos naturais e a constante intervenção humana na natureza gera um desequilíbrio nos ecossistemas, o que causam desastres ambientais como aquele de Brumadinho, Mariana, e agora, Belo Horizonte.
Nos casos das duas primeiras cidades mencionadas, além do fato da exploração da natureza que causa desastres ambientais, entra em cena a gana pelo lucro das grandes mineradoras dessa região, no qual vidas humanas e animais são contabilizadas somente como perda financeira e o cálculo é feito pensando não na dignidade humana, mas em termos de balanços contábeis, perdas e ganhos de acionistas e valorização e desvalorização da bolsa. Em outras palavras, seguem-se as ordens do deus mercado que não se importa em sacrificar pessoas para que seu desejo de poder seja saciado e estabelecido.
No caso das chuvas e inundações que ocorreram em Belo Horizonte, além do constante descaso das autoridades com relação aos planos de ação para evitar esses casos que ocorrem ano após ano, junta-se a falta de consciência de muitas pessoas que ainda continuam jogando seus lixos nos esgotos, papeis de bala e alimentos nas ruas e nos bueiros da cidade, o que, todos sabemos, gera o entupimento dos escoamentos e cooperam para o transbordamento das vias pluviais.
Em todas essas situações, está claro o constante descaso para com a natureza. Ao vê-la somente como fonte de recursos para a humanidade, esquece-se de respeitar os seus ciclos e seus percursos naturais. Como resposta, veem-se os alagamentos, os deslizamentos de terra, o aquecimento global, o derretimento das calotas polares e o aumento do efeito estufa.
Embora em dias atuais cresçam movimentos anticientíficos que negam os dados de aquecimento global e ameaça de extinção que a própria humanidade tem fomentado para a Terra, é tarefa humana e, portanto, também teológica, não se esmorecer e permanecer na luta para maior conscientização, exigindo que os responsáveis por esses desastres sejam penalizados e responsabilizados pelos danos causados pela intervenção irresponsável da natureza em sua volta.
Compreender Deus como o Criador de todas as coisas, que antes de criar o ser humano criou o jardim para que ele habitasse e cuidasse dele, deveria gerar a compreensão de que não somos “melhores e dominadores da natureza”, antes, que somos os mais dependentes de toda a criação, sendo, portanto, criados por último com a responsabilidade de cuidarmos do que veio antes de nós. Nesse sentido, o ser humano foi criado para ser um jardineiro consciente de que a sua própria vida depende da natureza na qual ele está inserido.
O pecado de Adão de achar que poderia viver por sua própria conta, independente de Deus e, assim, desobedecê-lo, portanto, ainda se revela quando ele pensa que é capaz de viver sem a natureza e se considera seu senhor e não seu mordomo.
Porém, semelhantemente ao que o mito nos conta que Adão e Eva foram expulsos do paraíso por Deus, trazendo a morte a todo o gênero humano, é presente o risco de, por causa de nosso pecado contra a natureza, sermos expulsos por ela da terra da qual deveríamos cuidar e, como o primeiro Adão, trazermos a morte a todos os seres viventes.
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