Um Deus incapaz de sofrer é também incapaz de amar

Um Deus incapaz de sofrer é também incapaz de amar

Diversas são as imagens de Deus que existem no cristianismo e que ainda persistem nas mentes de muitos cristãos. Uma dessas imagens é a visão de um Deus com os mesmos atributos dos deuses gregos. Sem dúvida, isso se deu devido às grandes influências recebidas da filosofia grega, visto que o povo de Israel também foi dominado pelos helênicos durante a grande expansão de Alexandre.
Essas influências, por sua vez, ao mesmo tempo em que ajudaram em diversas definições dos dogmas cristãos, também trouxeram algumas questões que até hoje pesam muito na forma como cristãos e cristãs pensam a pessoa de Deus. 
A ideia da impassibilidade de Deus, ou seja, a ideia de que Deus não pode sofrer, de que não é afetado pelas ações humanas, ou ainda uma ideia de onipotência que tem como ponto de partida o fato de que Deus pode fazer todas as coisas, são alguns exemplos dessas influências recebida.
De um lado, a onipotência a la gregos coloca a relação entre Deus e o mal numa situação extremamente complicada, visto a pergunta de “por que Deus permite o mal se ele é onipotente e pode acabar com ele”? se mostra como questão incômoda para diversas teologias que ainda veem a onipotência tendo como pano de fundo a filosofia grega. Ora, como questiona o famoso filósofo Epicuro, se ele é onipotente e pode acabar com o mal e não o faz, ele então é sádico. Se, do contrário, ele não acaba com o mal porque não pode então ele não é onipotente. Desse simples questionamento é possível perceber como que dependendo do conceito de onipotência que se usa é possível se ter uma visão totalmente diferente de Deus.
No que tange à questão da impassibilidade (também muito difundida entre os gregos, que afirmava que Deus não poderia sofrer, uma vez que o sofrimento implicava alteração e esta era sinal de imperfeição), podemos dizer que pensar um Deus impassível compromete grandemente a proposta cristã e coloca em xeque o próprio princípio da encarnação. Afinal, se compreendermos a encarnação como a entrada de Deus no mundo, o assumir de Deus da humanidade e da sua carnalidade, precisamos lançar por terra a ideia de um Deus que não pode sofrer, visto assumir a humanidade implica também assumir todo o sofrimento humano e suas mazelas. 
Ao mesmo tempo, se Deus é amor, como afirma a primeira carta de João, então não é razoável a ideia de um Deus que não sofre. Afinal, amar o outro é sempre sofrer esse outro, reconhecendo sua liberdade de até mesmo não querer retribuir o amor concedido, o que para muitos, ainda hoje, é um absurdo, e leva a pensar que todos e todas são obrigados a amar a Deus sob a pena de irem para o inferno se não o fizerem. A encarnação revela, assim, a radicalidade desse amor divino que considera o ser humano como alguém com grande dignidade e com a possibilidade de escolher qual vida deseja seguir.
Com isso em mente, não deveria ser espantoso que o Deus cristão precise ser visto como Deus que se importa e, por se importar, está também disposto a se envolver com aqueles e aquelas a quem ama. 
Diante disso, um cristianismo baseado no exemplo de Cristo e que compreende a encarnação deve ser uma religião que se dispõe a sofrer as dores do mundo, sofrer as causas dos marginalizados, angustiados, pobres e miseráveis como sua própria causa, lutando contra todas as estruturas que geram morte na sociedade atual. 
Se como diria Moltmann, “um Deus que não pode sofrer também não pode amar”, então se nos dizemos seguidores e seguidoras de Jesus Cristo não podemos ter uma atitude que segue na contramão desse princípio. 
Difícil? Sim. Mas, como toda atitude de amor, exige de cada um de nós a disposição para sermos como Jesus e, por meio do amor com que fomos amados, exalar e praticar esse amor por onde passarmos. 
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