Migração, perseguição e o possível emudecimento da voz cristã

Migração, perseguição e o possível emudecimento da voz cristã

É muito comum tanto no catolicismo como nos movimentos evangélicos atuais certo medo com relação à perseguição. Que o cristianismo seja a religião mais perseguida no mundo parece claro para qualquer pessoa que se dedique a leituras sobre perseguições religiosas ao redor do globo. São diversos os casos de cristãos sendo presos, torturados e até mesmo mortos devido à sua crença. Essa perseguição, por sua vez, não é algo novo. O cristianismo, desde seu início teve que lidar com esse fardo, principalmente nos 4 primeiros séculos de existência. As perseguições eram constantes, os espetáculos que se fazia com a vida dos primeiros mártires são revistos constantemente em qualquer filme que aborde a história do princípio do cristianismo, o que nos mostra que ser cristão não era uma tarefa simples e, em muitos lugares, continua não sendo.
No Ocidente, após o cristianismo virar a religião do Império Romano, como sabemos, a situação mudou drasticamente. De perseguido o cristianismo se transformou em perseguidor, fazendo com os outros o mesmo que sofria anteriormente. A Idade Média, amplamente conhecida e lembrada como um momento de grande perseguição religiosa e de enorme obscurantismo em diversas esferas da sociedade se mostra, até hoje, como um retrato e um alerta para o perigo que há quando acontece uma mistura entre religião e estado, sendo este subordinado àquela.
Com o passar do tempo e o advento da Modernidade, bem como com o processo de secularização que propôs a separação entre Igreja e Estado, ser cristão ou não passou a ser uma questão de escolha. Ninguém mais é obrigado a aderir ao cristianismo, embora a presença e a influência cristã no Ocidente ainda sejam marcantes, definidoras de diversos traços culturais e formas de ver o mundo e as relações humanas, o que de certa maneira, faz com essa religião ainda seja bem influente em grande parte do mundo ocidental.
Diante desse cenário, muitas pessoas veem com grande temor os fluxos migratórios que acontecem em tempos atuais, fruto das políticas imperialistas e de guerra comandadas por diversos países no intuito de angariar para si zonas petrolíferas e de grande valor em rotas comerciais. Por essas guerras e genocídios acontecerem, na sua maioria, em países muçulmanos, são milhares os pertencentes a essa religião que chegam ao Ocidente diariamente e tentam entrar em diversos países, no intuito de obter segurança e uma vida digna, longe dos terrores da guerra e do assombro constante da possibilidade de morrer.
Uma vez que a religião é parte integrante de uma sociedade, é de se esperar que imigrantes de outra religião busquem seus pares para se reunirem e realizarem seus cultos no novo país. Essa situação, por sua vez, pode gerar conflito, visto que muitas das regras dos países do Ocidente não levam em conta aspectos caros àquelas pessoas que vêm de outro contexto cultural e pertencem a religiões que, como todas, possuem tanto leituras fundamentalistas quanto progressistas a respeito de seus textos sagrados.
Caso a leitura seja de viés fundamentalista, o que tende a ser mais comum, não é difícil a criação de guetos que funcionam como estados paralelos dentro do estado territorial. Enquanto nos primeiros se seguem as regras de determinada religião, no segundo tem-se que viver de acordo com o estado laico. Essa dinâmica, muitas vezes conturbada, gera conflitos que são difíceis de resolver e demandam análises teológicas e políticas aprofundadas para se tentar conciliar as duas formas de ver a mesma realidade.
Do lado cristão fundamentalista, por sua vez, o medo de ter sua voz calada pelo avanço de outras religiões no contexto ocidental, faz com que se cresçam movimentos que são contrários à garantia de culto dessas religiões, bem como movimentos xenofóbicos e de perseguição. Claramente, esquecem-se de que o ser cristão é chamado à acolhida do diferente e à luta pelo direito daqueles e daquelas que são perseguidos.
Ao mesmo tempo, esquecem-se de que a voz cristã é a voz do amor. Assim, dizer que uma religião calará a voz cristã é dizer que tal religião impedirá o ser cristão de exercer esse amor para com seu próximo. Em outras palavras, afirmar que determinada religião possa calar a voz cristã é estar mais preocupado com o cristianismo do que com o se tornar um verdadeiramente cristão. Nesse caso, é sempre importante lembrar de que nem toda pessoa que pertence ao cristianismo é cristã e vice-versa.
Isso, por sua vez, não quer dizer que o cristianismo não seja importante enquanto religião, que deve ser respeitada e ter seus direitos de culto garantidos em qualquer lugar do mundo. Enquanto seres humanos devemos sempre condenar todo e qualquer tipo de perseguição feita a qualquer grupo religioso.
Mas, ao mesmo tempo, esse mesmo cristianismo não deve se esquecer de que mais importante do que os dogmas e os cultos, é o amor para com os semelhantes que, de acordo com o Evangelho, é a única maneira de se mostrar que realmente somos discípulos de Jesus de Nazaré.
Assim, podemos então dizer que se alguma religião conseguir fazer com que a pessoa que teve um encontro com o Ressuscitado deixe de amar, então essa religião realmente terá calado a voz cristã.
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