A humanidade de Jesus como problema e desculpa

A humanidade de Jesus como problema e desculpa

A humanidade de Jesus foi um dos grandes problemas que o cristianismo nascente no século I teve que enfrentar. De início, em sua luta contra o pensamento judaico e sua expectativa messiânica que considerava impossível que o Messias morresse em uma cruz que o tornasse maldito, visto que um senhor crucificado estava bem distante do rei que era esperado no tempo de Jesus.
Mais tarde, com a pregação do Evangelho chegando aos gentios, novos problemas começaram a surgir. Afinal, como justificar para os pagãos que o Deus de toda terra estava se misturando, na encarnação, com a matéria do mundo, que aos olhos de várias culturas daquele período era vista como, até mesmo, origem do mal?
E os problemas não pararam por aí. A cada novo período surgiam novas demandas, de maneira que a fé cristã foi levada a pensar e repensar seus dogmas a fim de dar respostas para essas novas questões. São a partir delas que diversas verdades cristãs começam a tomar forma, tais como a Trindade, a própria encarnação, as naturezas humanas e divinas de Cristo, a ação e vida do Espírito Santo etc, o que mostra que toda teologia séria sempre deve estar atenta às perguntas que lhe são feitas para poder, a partir delas, propor respostas que vão de encontro a essas perguntas.
Embora dogmaticamente esteja resolvida a questão da encarnação, sendo ensinada em diversas escolas dominicais e catequeses do mundo, ainda é muito comum se ouvir ideias estranhas a respeito dessa temática.
Uma das mais comuns é a ideia de que Jesus só fez aquilo que fez porque ele era Deus encarnado. Como consequência, não tem como ninguém ser como Jesus foi e fazer o que Jesus fez, uma vez que ele era perfeito. Essa fala (que pode muito bem ser usada como desculpa para não se viver o Evangelho pregado por Jesus), no entanto, traz em seu cerne algo muito complicado e compromete a própria encarnação. Ora, se Jesus só pôde fazer as coisas que ele fez porque era Deus encarnado, então até que ponto Jesus realmente assumiu a humanidade em sua integralidade? Esse “a mais”, que é a única coisa que permite que ele viva da forma que ele viveu, e que não é acessível aos outros humanos, não faria da encarnação somente um grande teatro, no qual Jesus somente desempenhava um papel nisso tudo?
Assumir a premissa de que Jesus só fez o que fez por ser Deus encarnado, por sua vez, causa um grande problema porque, automaticamente, o que se está dizendo é que ninguém pode imitar os passos de Jesus. Se assim o for, a fala de Paulo: “sede meus imitadores como eu sou de Cristo” traz como consequência duas opções: ou Paulo é um mentiroso (uma vez que ninguém conseguiria imitar a Jesus), ou o que ele demanda de seus seguidores é algo intangível e, nesse sentido, Paulo seria um hipócrita por exigir algo que ninguém é capaz de cumprir.
Isso nos leva a concluir que se assumimos a encarnação como regra de fé, então é necessário também assumir que Jesus viveu, pensou e agiu como humano que era, ou seja, como judeu que vivia na Galileia do século I, sofrendo e se alegrando como qualquer pessoa poderia fazer naquele tempo. Em outras palavras, implica assumir a radicalidade da própria encarnação.
Tirar o aspecto mágico que é colocado sobre a encarnação se mostra, então, como tarefa necessária para seguir a proposta de Jesus que consiste em se abrir totalmente a Deus e se abrir totalmente ao próximo, revelando nisso o amor de Deus e o próprio Deus.
Ao mesmo tempo, por sua vez, leva a toda pessoa cristã a repensar seu comportamento frente ao mundo e implica o compromisso de tentar andar como Jesus andou, sem a desculpa de que ele só conseguiu se abrir totalmente ao próximo e a Deus porque era o próprio Deus.
Diante disso, ao invés de se pensar que não é possível ser como Jesus porque ele é Deus, enquanto cristãos e cristãs precisamos a cada dia tentar ser como Jesus foi e seguir seu exemplo nas pequenas coisas, assumir a carne do mundo, sofrer com os que sofrem e alegrar com os que se alegram, mostrando, assim, a beleza do amor e da graça de Deus que, em Jesus, revelou quem Deus é e o ser humano como deveria ser.
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