O incômodo da graça de Deus

O incômodo da graça de Deus

Imagem de msandersmusic por Pixabay
Toda pessoa que se diz cristã, em algum momento da sua vida, já falou sobre a graça de Deus. De alguma forma, o termo graça se encontra bastante banalizado em alguns meios, de maneira que não se reflete mais sobre o que essa palavra tão simples, e também tão poderosa, quer dizer. Assim como o credo que se fala na maioria das igrejas cristãs ao redor do mundo e que praticamente todas as pessoas minimamente instruídas na fé cristã conseguem recitar, cuja fórmula começa com o famoso “Creio em Deus Pai….” não possui muita reflexão sobre o que quer dizer afirmar a crença em um Deus que é Pai, da mesma forma a palavra graça é constantemente utilizada em círculos cristãos sem uma reflexão sobre o seu real significado.
Graça, cujo termo significa “favor não merecido”, é um conceito fundamental para a fé cristã. Afinal, vivemos pela graça de Deus, somos salvos mediante a graça de Deus que nos alcança por meio da fé, algumas pessoas buscam graças dos céus diante de situações difíceis e por aí se seguem os diversos usos que essa palavra possui no dia a dia cristão.
Contudo, mais do que somente ser um termo corrente, esse conceito também traz em si algo de bastante incômodo. Em seu bojo está a ideia de que diante de Deus todas as pessoas são iguais e estão na mesma condição diante dele.
De início, pode parecer algo trivial e que o próprio senso comum chega a conclusão, afinal desde criança se aprende que Deus ama a todas as pessoas da mesma forma, não fazendo distinção entre nenhuma delas. Mas, se olharmos atentamente na vida cotidiana, constantemente se percebe certo “rankeamento” de população feito pelas pessoas que se dizem cristãs. É comum no meio cristão se considerar como superior aos outros por acreditar que se está na religião correta, ou por crer que se anda de acordo com aquilo que Deus quer que se ande. Em outras palavras, é comum que pessoas cristãs se considerem como mais amadas por Deus e mais dignas de receber suas bênçãos do que aquelas para as quais Deus não faz diferença nenhuma em suas vidas, ou em seu modo de agir, e até mesmo, não é considerado como existente.
Diante disso, certo grau de superioridade é percebido nos discursos cristãos atuais, para os quais todo o resto do mundo está perdido e somente aqueles e aquelas que estão dentro de alguma comunidade cristã são salvos. Superioridade essa também percebida entre as próprias pessoas que pertencem a uma comunidade cristã, ou seja, a pessoa que é mais ativa na igreja e mais envolvida constantemente considera aquela que não o é como mais afastada de Deus e com menos interesse nas coisas divinas e, da mesma forma, repete a ideia de se sentir superior e achar que Deus a prefere em detrimento das outras pessoas que não são tão ativas assim na vida da igreja.
Com esses pequenos exemplos é possível perceber o quanto o princípio da graça ainda é mal compreendido no meio cristão. A graça de Deus traz consigo o incômodo de anunciar que ninguém, por mais crente que seja, é considerado melhor do que qualquer outra pessoa. Em outras palavras, a graça revela que não há nada que possamos fazer para que Deus nos ame mais ou para que ele nos ame menos. Dessa forma, a graça escancara que não há diferença nenhuma, aos olhos de Deus, entre uma prostituta e uma beata, entre um assassino e um pastor, entre um psicopata e um seminarista, uma vez que a graça de Deus alcança a todos e todas da mesma forma, não fazendo acepção de pessoas e não selecionando os filhos e filhas mais amadas por esse Deus.
Reconhecer a graça de um Deus que é Pai é aceitar que ele traz o sol sobre justos e injustos e faz vir a chuva sobre maus e bons, sempre prezando pela liberdade daqueles e daquelas com quem quer conviver. A graça de Deus revela, assim, um Deus amoroso que permite até mesmo não ser amado de volta por aqueles e aquelas para as quais se entrega.
Assim, a compreensão dessa graça deveria nos fazer abrir mão de toda e qualquer pretensão de superioridade com relação a quem quer que seja e nos fazer perceber que um Deus que ama é sempre um Deus que deixa o ser humano radicalmente livre para se relacionar ou não com ele, não o forçando a nada.
O incômodo da graça nos chama à humildade ao nos fazer perceber que somos todos irmãos e irmãs amados pelo mesmo Deus e, por isso mesmo, responsáveis pela vida uns dos outros e, principalmente, responsáveis pelos pobres, desabrigados, famintos e desfavorecidos dessa terra. Consequentemente, chamados a lutar pela dignidade ampla de todas essas pessoas.
Se a graça de Deus não nos incomoda dessa forma, talvez ainda seja necessário que nos tornemos realmente pessoas cristãs.
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