Deus me disse: uma carta coringa muito útil

Deus me disse: uma carta coringa muito útil

Uma das questões mais presentes em nosso cotidiano é a discussão a respeito de opiniões ao invés da discussão a respeito dos conceitos e consequências de fatos. Isso é percebido claramente em todas as redes sociais e até mesmo no trato com colegas de trabalho e estudo. Basta que se jogue um assunto qualquer para que surjam pessoas com diversas opiniões a respeito daquela temática, ainda que estas sigam contradizendo especialistas que dedicaram anos de estudo e trabalho na área.
Para essas pessoas, o mais importante é deixar as opiniões e dar um caráter de totalidade das situações por causa de, muitas vezes, uma pequena vivência que se teve na área. Assim, não é difícil ouvirmos que “Bolsa Família só assiste vagabundo”, baseado no fato de que a pessoa que diz isso conhece uma família que, agindo de má fé, decide não arrumar emprego para continuar recebendo o benefício. Essa opinião, no entanto, negligencia o fato de que o IBGE, no último censo feito em 2010, mostrou que 75,4% beneficiários do Bolsa Família trabalhavam, e cerca de 1,7 milhões de pessoas deixaram de receber o auxílio por não precisar mais de ajuda.
Esse é um exemplo simples de como que as opiniões nem sempre estão certas, sendo somente isso: opiniões. Contudo, em um mundo em que se é demandado toda hora que se diga alguma coisa sobre qualquer assunto, são diversas as pessoas que embarcam nisso e espalham suas opiniões, incitando discussões sem fundamentos. Por sua vez, a discussão de conceitos e fatos é importante para que haja avanço de conhecimento, bem como soluções de problemas que afetam nossa sociedade.
Uma das maneiras mais usadas para se acabar com todas as discussões, principalmente no meio cristão, é afirmar que Deus disse determinada coisa. Essa cartada coringa que existe aos montes em ambientes de matrizes cristãs tem a vantagem de poder ser utilizada em qualquer situação, tempo e espaço, tendo o enorme poder de encerrar, de uma vez por toda, qualquer que seja o embate. Afinal, quem vai dizer ou convencer à outra pessoa de que Deus não falou esse algo que ela disse que ele falou?
Com isso em mente, não é difícil de perceber o porquê de certas pessoas dizerem que Deus mandou que determinado suicídio coletivo acontecesse (lembrem-se do caso de Jim Jones), ou que Deus falou para não declarar alguma renda recebida para livrá-lo da multa, ou ainda, que Ele mandou todo mundo do templo dar tudo o que tem para igreja para que ele as retribua cem vezes mais, dentre tantos outros exemplos que poderiam ser citados, nos quais o “Deus disse” é usado para justificar todo e qualquer comportamento e estelionato.
Recentemente, ouvimos da atual ministra do ministério da Família, Mulher e Direitos Humanos que sua titulação era bíblica porque, segundo o texto bíblico (provavelmente Ef 4,11), é Deus quem chama alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres. Nessa linha, segundo ela, teria sido Deus quem a titulou como mestra em educação e direito. Embora bizarra a interpretação utilizada, que segue na contramão de toda e qualquer exegese séria do texto, ela não deixa de ser um exemplo bem claro do que a cartada coringa do Deus me disse é capaz de sustentar.
Diante disso, é importante ter em mente que nem todas as opiniões são certas, nem toda interpretação utilizada na explicação do texto bíblico é correta, sendo necessário que se ouçam os especialistas e detentores de um saber reconhecido nas diversas áreas do conhecimento, a fim de que as decisões tomadas com relação à vida cotidiana, do país e dentro da comunidade de fé não se baseiem somente em opiniões, por mais tentador e fácil que seja seguir pelos caminhos propostos por elas.
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