Amor e liberdade: desafios para um Cristianismo atual

Amor e liberdade: desafios para um Cristianismo atual

O Cristianismo é uma religião em que a liberdade tem um papel preponderante. Desde os relatos do Antigo Testamento das diversas libertações que Deus concedeu ao povo de Israel, como a libertação do Egito narrada em Êxodo, até a libertação da morte que, pela fé, nós cristãos cremos que tenha vindo por meio de Jesus Cristo, a religião cristã insiste no fato de que Deus é um Deus que liberta e tem prazer na liberdade.
Que a liberdade seja algo pregado pelo Cristianismo não deveria ser algo que nos causasse espanto, visto que para nós, cristãos, Deus é amor e seria muito difícil pensar um Deus que ama sem deixar livre, visto que todo amor sempre pressupõe a liberdade. Dessa forma, a liberdade se torna quase que um corolário da premissa de que Deus é amor, como insiste a carta de I João.
Contudo, em nossos dias, vemos crescer no meio cristão diversos movimentos que seguem na contramão dessa liberdade, tão cara ao discurso bíblico. Partindo de uma visão de um Deus tirânico que demanda que suas ordens sejam cumpridas a qualquer custo, e ancorados em uma leitura literal do texto bíblico, esses movimentos voltaram a pregar que há leis que foram definidas em algum momento na eternidade e que valem, obrigatoriamente, para todas as eras pelas quais o mundo passou e passará (digo voltaram porque já vimos esse tipo de pregação na história do Cristianismo). Ao fazerem isso, começam a propor certa separação entre os/as que obedecem a essas determinadas leis e os/as que não as obedecem, sendo os/as primeiros/as os que merecem a salvação e os favores divinos, e os/as segundos/as aqueles/as que merecem a condenação como fruto da desobediência.
Não percebem, porém, que a obediência por medo da condenação não é reflexo de uma relação amorosa, antes, fruto de uma relação marcada pelo medo. Com isso, como consequência desse tipo de pregação, começa-se certo “ranqueamento” de santidade por parte desses grupos e seus adeptos, bem como a difusão de um Cristianismo que está há anos-luz daquilo que foi a pregação de Jesus e toda a narrativa bíblica.
Diante desse cenário, a teologia cristã é chamada a resgatar o valor da liberdade que se encontra presente ao longo da narrativa bíblica, no intuito de anunciar que a mensagem do Evangelho não é de condenação, mas de salvação, ou seja, de um Deus que ainda se importa com a humanidade e não permite que a morte tenha a última palavra sobre ela. Nesse sentido, toda teologia que não se funda no amor e nessa liberdade que ele pressupõe, mas serve como instrumento de condenação, segregação, morte e opressão não deve ser considerada cristã, mas ideologia que visa o poder sobre as consciências das pessoas.
Liberdade, amor e vida tornam-se, então, critérios de discernimento para todo discurso que se diz cristão. Ali onde essas premissas não são valorizadas ou até mesmo incentivadas, dificilmente se pode dizer que ali se segue o exemplo de Jesus Cristo. Da mesma forma, todo movimento que exige obediência cega a determinada lei supostamente criada na eternidade, condena o questionamento, afirmando que a dúvida é falta de fé, ou exige a morte daqueles e daquelas cujo pensamento é diferente, não deve ser considerado cristão, mas movimento enganador que tenta disseminar a morte de discursos e de pessoas.
O verdadeiro amor é aquele que se permite ser negado, é aquele que dá total liberdade ao outro para aceitá-lo ou não, sem ameaças e sem cerceamento, é aquele que vem ao mundo em sua simplicidade, como a imagem do menino na manjedoura tão cara nessa época do ano. Tudo que foge a isso não pode ser considerado como amor, de acordo com as narrativas evangélicas.
Talvez, por isso, essa deve ser uma das tarefas mais difíceis para qualquer movimento ou teologia que se dizem cristãos. Afinal, lidar com a radicalidade do amor de Deus, que pressupõe a liberdade para a vida e plenitude humana, sem tentar colocar essas duas categorias (amor e liberdade) em caixinhas teóricas e institucionais é algo muito desafiador.

A pergunta que fica é: será que o Cristianismo e a teologia cristã atual estão dispostos a caminhar e a se implicar com tamanha responsabilidade n

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