Radicalidade e subversividade como consequência do Evangelho

Radicalidade e subversividade como consequência do Evangelho

Imagem de Free-Photos por Pixabay
Talvez um dos grandes dramas de todo movimento fundamentalista, principalmente os que surgem nos meios cristãos atuais, seja o fato de ter que lidar com as categorias da radicalidade e subversividade proposta pelo movimento de Jesus Cristo. Afinal, olhar para aquele o qual dizem seguir e perceber que ele está longe de se encaixar naquilo que se esperava dele dentro da sociedade de seu tempo é algo por si só aterrorizante.
Para as pessoas familiarizadas com o texto bíblico e para aquelas que estão dispostas a estudá-lo de maneira um pouco mais aprofundada é fácil perceber que Jesus não era visto como um exemplo de judeu a ser seguido pelos líderes religiosos de seu tempo e, muito menos, como exemplo de moral para com o povo mais rigoroso quanto ao cumprimento da lei. Constantemente ele estava discutindo com os líderes religiosos acerca dos princípios da lei, tocando em pessoas, as quais a própria religião judaica (da qual Jesus fazia parte) falava que não era para tocar, conversando com mulheres e deixando ser tocado por elas, o que dado todo o contexto dos rituais de pureza do judaísmo do tempo de Jesus, era algo que o colocaria em situação de impureza, sem mencionar, claro, sua condenação como bandido pelo Império Romano, uma vez que a crucificação era a pena capital para aqueles que se levantavam contra César (vale lembrar que a pena capital para os judeus, conforme ordenava a Torá, era o apedrejamento).
Os atos e falas de Jesus foram sempre, como constam nas narrativas evangélicas, subversivos e contra uma lei engessada, cujo valor estava somente nos cumprimentos rituais e literais do texto, sem se atentar àquilo que diversos profetas já falavam há muito tempo: que importa muito mais a Deus o coração contrito do que o sacrifício de bois e carneiros, sendo o primeiro aquilo que deveria ser o motivador para todo e qualquer ato em relação a algum mandamento divino.
A subversividade de Jesus, por outro lado, tem também o caráter da radicalidade do cumprimento da própria lei. Em um dos diálogos narrados nos Evangelhos, consta aquilo que é chamado do resumo da lei e dos profetas, muito conhecido por todos e todas que leem esse texto, a saber, que toda lei se resume em dois mandamentos: “Ame a Deus sobre todas as coisas e ao seu próximo como a ti mesmo”.
Se, como diz Paulo, “o fim da lei é Cristo para a justiça de todo o que crê”, e independentemente de qual das duas possíveis interpretações tomamos sobre esse versículo, a vida de Jesus, conforme narrada nos Evangelhos, traz para nós uma luz de como deve ser interpretado todo e qualquer ato e fala que ele tenha feito. Em outras palavras, seus atos e falas se mostram como o efetivo e total cumprimento da própria lei, de maneira que, nele, essa mesma lei tenha sua finalidade e seu fim.
Com isso, seus atos de subversividade revelam a radicalidade do cumprimento da lei divina. Ao tocar os impuros, falar com as mulheres, curar os leprosos, deixar os discípulos colher espigas em dia de sábado para comer, perdoar pecados etc, o que Jesus está fazendo é cumprir o mandamento de “amar ao próximo como a ti mesmo” que é a consequência imediata e, como diz a carta de I João, o único parâmetro para se dizer que se ama a Deus sobre todas as coisas.
Talvez seja por isso que todo movimento fundamentalista cristão, tão perturbado com um cumprimento rígido de normas, apagam de seus discursos o que as narrativas evangélicas mostram como o cotidiano da vida de Jesus, que era o se importar com o sofrimento humano, anunciando a boa nova de um Deus que ama independentemente do que se é ou do que se faz, sem pregar qualquer tipo de norma moral de conduta definida na eternidade, mas deixando que o próprio encontro com ele fosse o fator crucial para a mudança de vida que deveria ser feita. No lugar, esses movimentos fundamentalistas colocam regras e mais regras para tolherem a liberdade, impondo fardos pesados que eles mesmos não estão dispostos a carregar, o que em nada difere dos líderes religiosos do tempo de Jesus.
O Evangelho, contudo, mostra outro caminho, de maneira que podemos dizer que a radicalidade do Evangelho implica subversividade para com o status quoque gera opressão, e nisso se mostra o cumprimento de toda e qualquer lei de Deus, que nada mais é do que o amor radical ao próximo. Tudo que foge dessa pregação amorosa não passa de ideologia que visa o poder, o que nada tem a ver com Jesus.
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