Cristianismo e o medo do diferente

Cristianismo e o medo do diferente

O medo do diferente é algo comum na sociedade. Tememos aquilo que não conhecemos, justamente porque não termos controle sobre o que não fazemos ideia do que seja. Esse medo ao diferente pode ter tanto seus fatores positivos como negativos.
Que o medo seja, em alguma medida, um mecanismo de defesa, parece claro para todos e todas, sendo esta característica a mais lembrada dos fatores positivos do medo. Ele nos previne de, por exemplo, pular de um lugar para o outro se não sabemos qual a distância que nos separa desses dois lugares, ou se não estamos aptos a ver se o que há entre eles é um abismo ou simplesmente um enorme colchão de espuma.
Como fator negativo, o medo pode ser extremamente paralisador, o que impede diversas pessoas de realizar seus próprios sonhos. Um medo de altura, por exemplo, pode servir tanto como mecanismo de defesa, como quanto empecilho para alguém cujo sonho seja ser comissário/a de bordo ou escalador/a profissional.
Quando levamos isso para o campo religioso, esse medo do diferente, na maioria das vezes, manifesta-se em seu viés negativo. O Cristianismo, ao longo de sua história, é um exemplo disso. Durante muito tempo e, infelizmente, ainda hoje, percebe-se um medo constante com relação a todo tipo de pensamento divergente àquele que traz algum tipo de segurança de que se está no caminho certo a ser seguido.
Por este motivo, esse medo do diferente faz com que muitas vezes, a religião cristã se mostre alheia ao seu tempo e às questões que carecem de respostas na sociedade atual. Temas como aborto, diálogo inter-religioso, religiões de matrizes africanas, homossexualidade etc são geralmente relegados a “mundanismos” e, por esse motivo, não são discutidos na maioria das igrejas cristãs, sendo somente condenados como não pertencentes à vontade de Deus. Um medo em relação a essas questões é tangível na maioria das comunidades cristãs no país e em alguns lugares do mundo.
Falar sobre as religiões de matrizes africanas, principalmente no meio evangélico, é ainda um tabu. Tem-se a visão de que tudo que é relacionado com a negritude africana e suas religiões são, na verdade, tentativas satânicas para afastarem os fieis da fé verdadeira, ou, até mesmo, destruir a igreja.
Por puro preconceito, desconhecimento e medo muitas comunidades nem sequer se aproximam das pessoas que pertencem a essas religiões para não correr o risco de “se contaminarem” com suas práticas e precisarem “ser libertas” posteriormente. O medo do desconhecido, dessa forma, coloca-se como enorme barreira para a troca de experiências e aprendizado mútuo que poderia surgir do diálogo entre cristãos e praticantes de religiões de matrizes africanas.
Da mesma forma, ao se falar das descobertas das ciências que colocam em xeque diversas afirmações feitas por leitores literais do texto bíblico, tais como o mito judaico de Adão e Eva, ou a narrativa da criação em Gênesis etc, é comum o rechaçar dessas descobertas por irem contra aquilo que foi aprendido e considerado como verdade. Assim, por desconhecimento da história de formação do cânon bíblico e por medo de que a fé possa ser abalada por causa dessas descobertas, muitos cristãos e cristãs perdem a oportunidade de dialogar com as descobertas científicas para depurarem a própria fé e, assim, tornarem-se cristãos e cristãs mais aptos para falar a respeito da esperança que professam.
Somente um Cristianismo que vive no “verdadeiro amor que lança fora todo medo” (1Jo 4,18) é capaz de ser uma boa nova para homens e mulheres de nosso tempo. Para fazer isso, é importante lembrar que todo amor é dialogal e, por isso mesmo, aberto a posições que são diferentes, o que pressupõe que não deve haver questões tabus para um Cristianismo que entendeu a mensagem de Jesus.
Assim, o Cristianismo atual deve, necessariamente, estar aberto para o diálogo tanto com as outras religiões, quanto com a própria ciência, de maneira que haja um enriquecimento mútuo e, dessa forma, a construção de uma sociedade melhor.
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