Cristo e o fim da lei

Cristo e o fim da lei

Porque o fim da lei é Cristo para a justiça de todo o que crê (Rm 10,5). Esse versículo que consta na carta de Paulo enviada à igreja de Roma faz parte de seu argumento a respeito da salvação dos gentios e dos judeus dentro do grande plano divino. A argumentação completa segue do capítulo 9 ao capítulo 11 da carta.
Aos leitores e leitoras das cartas de Paulo e conhecedores/as de sua história não é difícil perceber que essa fala está em total sintonia com toda sua pregação, ou seja, de que não era necessário aos gentios o cumprimento da lei judaica para serem salvos, uma vez que essa salvação viria somente pela fé e não pelos rituais da lei. Essa postura torna-se mais clara na carta escrita aos Gálatas, que é anterior à de Romanos, mas cuja questão já se fazia presente na igreja que se reunia na Galácia.
Historicamente, há duas formas de ver a interpretação desse versículo. Uma primeira é considerar que Cristo é a finalidade da lei, ou seja, seu telos, para onde tudo converge. Assim, em Cristo temos o cumprimento de toda lei judaica e, por este motivo não é mais necessário o seguimento dessa mesma lei para obtenção da salvação e justificação. A segunda forma de interpretação consiste em considerar Cristo como fim mesmo da lei, ou seja, é em Jesus que a lei judaica deixa de existir para aquele ou aquela que se converte a Cristo, sendo somente a lei do amor a que deve nortear a vida da nova criatura, para quem as coisas velhas se passaram.
As duas interpretações são válidas e no contexto em que o texto foi escrito as duas formas pressupõem que a lei judaica, seja pelo cumprimento efetivado por Cristo, seja pelo término proposto por ele, não se fazia mais necessária para alguém ser salvo/a e justificado/a do pecado e da morte.
Em nosso contexto atual, em que há uma tendência muito grande por parte de alguns/as cristãos/ãs de reassumirem um discurso fundamentalista de que a Bíblia é uma lei a ser seguida em sua forma rígida, e de que o que está escrito é o que deve ser feito, resgatar esse versículo e sua interpretação do contexto bíblico em que foi escrito torna-se necessário.
A mensagem de Jesus e a mensagem dos/as seguidores/as dele sempre foi a mensagem do amor e a mensagem do bem ao próximo. Muito contrário a uma questão de rigidez e obediência a uma lei escrita, Jesus mostrou que a verdadeira lei consistia em amar a Deus e amar aos/às seus/suas semelhantes, porque esses/as também são a imagem de Deus. Assim, toda lei e toda ritualística que não tem essa motivação não pode ser considerada cristã, mas somente instrumentos de manutenção de poder ou de controle sobre pessoas de fé inocente.
Infelizmente, há muitos pastores, pastoras e padres que, partindo de um texto escrito, tirando-o do seu contexto, tentam impor a crentes de suas igrejas e paróquias um jugo que segue na contramão do movimento de Jesus. Esse jugo consiste na obediência de diversas normas e condutas que, segundo tais lideranças, garantem que Deus escute as orações e súplicas desses e dessas que andam conforme a “cartilha” determinada e a interpretação pregada por esses/as líderes nos diversos púlpitos ao redor do mundo.
Alguns/mas lideranças o fazem por ignorância, mas outras, ainda que tenham conhecimento sobre essas questões, agem em nome do poder, transformando o povo simples em massa de manobra para legitimar agendas que são contrárias a toda pregação de Jesus, ou seja, legitimar uma agenda que é contra o direito do pobre, dos marginalizados e dos esquecidos pela sociedade.
Diante desse cenário tão comum no meio de igrejas evangélicas e católicas, resgatar que o fim da lei é Cristo torna-se fundamental. A radicalidade dessa afirmação traz grandes consequências para a pessoa que compreende a profundidade e peso desse versículo. Primeiro, ele mostra que não há nada que se possa fazer para que Deus nos ame mais ou nos ame menos, ou seja, ninguém é melhor ou tem mais direito que outros, uma vez que a justificação vem somente pela fé; segundo, que não são as obediências a normas morais e ritualísticas que garantem a justificação, o que quer dizer que não adianta absolutamente nada estar na igreja todos os dias da semana se as causas pelas quais se luta não são norteadas pelos mesmos princípios que levou Jesus a lutar em seu tempo; terceiro, que o seguimento de Jesus traz consigo o abandono da tentativa de justificação por meio da lei, reconhecendo que é somente pela fé que a alcançamos e nada, além disso, é necessário para tal.
Por último, alerta-nos de que todo discurso que tem “o texto bíblico” tirado do seu contexto para estabelecimento de norma moral segue na contramão daquilo que Jesus colocou como princípio de toda lei, ou seja, o amor.
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