Você não é melhor do que quem não é cristão

Você não é melhor do que quem não é cristão

Todas as culturas têm uma maneira própria de lidar com as questões divinas. Pensar que todas elas pensam o divino assim como a sociedade ocidental pensa seria muita inocência ou presunção. Até mesmo dentro da própria América Latina é possível perceber modos de vida religiosa totalmente diversa da que se está acostumada nos países ocidentais, bastando para isso olhar para as religiões andinas e indígenas para perceber que elas possuem seu modo próprio e rico de se relacionar com a divindade.
Essa característica plurirreligiosa, no entanto, ainda é vista por muitos/as cristãos/ãs como algo maléfico. São diversos os movimentos que querem “evangelizar” os povos originários do continente, transformando-os em cristãos/ãs na versão ocidental, por acreditarem que esta é a única forma possível da salvação de Deus se fazer presente para eles. Nesse tipo de postura, Deus não diverge de nada de um soberano que tem sua ordem pré-definida e que deve ser, então obedecida cabalmente. A evangelização é somente uma desculpa para mostrar quem é o Todo Poderoso e quem é que manda, realmente, no mundo todo.
A perspectiva que Jesus tem de Deus, no entanto, como narrada nos Evangelhos, segue por um caminho totalmente oposto. Deus, para Jesus, é o seu Pai e está disposto a se relacionar pessoalmente com seus filhos e filhas. Assim, sai de cena uma visão meramente do “Senhor de toda terra”, tão presente na religião judaica, e entra a figura subversiva de um Deus que se mostra como Pai/Mãe de seus filhos e filhas. Esse Deus, então, não deve ser considerado um “Deus acima de todos”, mas um “Deus conosco” (Emanuel, como narra Lucas), que decide caminhar com aqueles e aquelas que se mostram dispostas a seguir seus caminhos, estendendo sua graça sobre todos e todas, sem distinção, e promovendo sua salvação da morte a todos e todas, independentemente de cultura ou nacionalidade.
Paulo, falando aos Gálatas, ressalta esse caráter não discriminatório da graça de Deus, que não faz separação de raça, cor, etnia, ou qualquer outra coisa. Faz isso em resposta a grupos de judeus convertidos que queriam que os gentios seguissem os rituais judaicos para serem considerados como salvos em Cristo.
Seguindo nessa linha é possível perceber que o Cristianismo, após ser decretada religião do Império Romano, seguiu na mesma via, tendo ainda hoje esse tipo de atitude como algo comum. São diversos os grupos, sejam evangélicos, sejam católicos, que continuam a seguir os mesmos passos dos primeiros judeus convertidos, pregando que as pessoas que desejam ser alcançadas pela salvação que vem pela graça, necessariamente, precisam cumprir os rituais do Cristianismo, como batismo, ceia, “aceitar Jesus”, dentre tantos outros.
Ao fazer isso, não raramente, esses/as que se dizem cristãos/ãs consideram-se melhores, mais iluminados, e, alguns, até mesmo, mais dignos da salvação do que as pessoas que não são convertidas ao Cristianismo. O seguimento de Jesus, nesse sentido, transformou-se em máquina proselitista e, com isso, ao invés de se tornar instrumento de graça e salvação para as nações, em muitos lugares tem se tornado instrumento de morte de culturas, povos, e saberes.
Nesse ponto, faz-se importante perceber a subversividade trazida por Jesus em seu tempo. Diante de um povo que se considerava escolhido por Deus e guardião dos rituais desejados por ele para ser considerado santo, Jesus apresenta um Deus totalmente diferente, que não ligava para os rituais de pureza, que não estava nem aí a respeito de qual o dia da semana em que se colhiam espigas, que não tinha nenhuma preferência por ações morais ritualísticas, mas que prezava, antes de tudo, pelo mostrar da compaixão e misericórdia.
 Jesus mostra que o que Deus procura é um coração contrito e disposto a segui-lo em seu amor aos outros, em sua misericórdia e apreço pelos marginalizados e excluídos na sociedade injusta. O próprio Jesus não se importava se algo era feito por alguém que não o seguia, antes, simplesmente disse em uma situação: “não o impeçais”.
Diante de tudo isso, uma teologia que se diz cristã necessita olhar com atenção para as matrizes religiosas não ocidentalizadas para reconhecer nelas também aspectos do mesmo Deus que, como cremos, é único.
Dessa forma, podemos dizer que um cristão que acha que tem um melhor conhecimento de Deus do que um indígena, ou do que qualquer outra pessoa que pertença a qualquer outra religião simplesmente porque pertence ao Cristianismo, provavelmente não compreendeu as Escrituras e a ação do Espírito que sopra onde quer.
Compartilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *