Não se misturar com o mundo

Não se misturar com o mundo

Quem pertence a uma igreja protestante de cunho evangélico-pentecostal, provavelmente já ouviu alguma pregação dizendo que o cristão não deve se misturar com o mundo, antes, deve se afastar cada vez mais dele, buscando, dessa forma, se aproximar de Deus e realizar sua vontade.
Esse tipo de pregação, no entanto, pode estar de acordo com a mensagem cristã ou não. Se por “mundo” se entende que essa palavra se refere às pessoas não convertidas ao Cristianismo, de maneira que o verdadeiro cristão deva se afastar de tudo que não está de acordo com a sã doutrina e com uma leitura literal do texto bíblico, então esse tipo de discurso não coaduna com a proposta cristã vivida e pregada por Jesus e pelos primeiros cristãos.
Infelizmente, ainda é muito comum que diversos cristãos e cristãs entendam o “se afastar do mundo” como pretexto para serem antissociais, preconceituosos e árbitros/as do comportamento alheio. Isso faz com que o mundo seja visto como algo mal, como lugar pelo qual se é obrigado a passar antes de ir para a “morada celestial”, e todo prazer é tido como pecaminoso, devendo, portanto, ser evitado por meio das orações, jejuns, penitências etc, o que nada tem a ver com a proposta do texto bíblico.
Dessa forma, é preciso entender que quando o texto bíblico fala de “mundo”, ele tem em mente um sistema mundano e não simplesmente algo material, o que pode ser, ao mesmo tempo, libertador e demandante. Libertador porque se percebe que o mundo criado por Deus é bom e feito para que aproveitemos as coisas que nele existem como dons do Pai dados a nós, filhos e filhas Dele. Demandante, porque tendo consciência de que a pregação cristã fala contra um sistema que faz com o ser humano se volte somente para si mesmo em uma atitude egoísta, demanda de nós uma postura contra ele.
É nesse pano de fundo que é necessário compreender a proposta cristã de não se misturar com o mundo. A diferença entre “mundo” e Cristo, ou como gostava Paulo, “carne” e “Espírito” se dá de forma radical, de maneira que Tiago chega até a dizer que “qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4:4).
O sistema mundano é aquele que gera morte e exclusão, ancorado em uma atitude de autossuficiência egoísta, que se manifesta em dias atuais, dentre outras formas, por meio da violência contra o pobre, por meio dos regimes econômicos que somente visam o lucro acima de todas as coisas, ainda que para isso seja necessário destruir a natureza e as fontes renováveis de vida, planejar e executar a guerra, condenando diversas pessoas a se refugiarem longe de seus países natais, ceifando a vida de comunidades indígenas e minorias ao redor do mundo.
O “sistema” cristão, por sua vez, é aquele que tem como premissa o amor solidário, que sai de si e vai em direção do outro por reconhecer em outro rosto humano um/a igual. Da mesma forma, a luta pela preservação da natureza é motivada por reconhecer que ela também faz parte da Criação, não estando aí somente para ser utilizada e explorada pela humanidade. Muito pelo contrário, há o reconhecimento de que estamos aqui por causa dela, uma vez que se a natureza se acaba, nós também não conseguimos sobreviver.
Não se conformar com o mundo, dessa maneira, não tem a ver em não tocar as coisas materiais ou deixar de aproveitá-las em nome de um puritanismo que nada tem a ver com o ser cristão. Antes, tem a ver com ser contra os sistemas de morte e opressores que assolam a vida da natureza e de milhões de pessoas ao redor da Terra, lutando para que os sem direito alcancem justiça e que os marginalizados tenham sua dignidade devolvida.
Os que fazem isso se tornam mal falados, são caluniados, perseguidos e até mortos. Tal como Jesus, que morreu a morte dos conspiradores contra o Império Romano, assim ainda acontece em dias atuais, contra aqueles que se colocam contra os sistemas opressores e se portam como inimigos do mundo, em sua acepção bíblica.

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