Um Cristianismo influenciador ou influenciado?

Um Cristianismo influenciador ou influenciado?

Um dos discursos mais comumente ouvido dentro das comunidades protestantes é a respeito da influência que se exerce sobre o mundo. Juntamente com a pergunta sobre a quantidade de almas ganhadas para Jesus no ano que se passou, numa espécie de balanço geral que contabiliza o seu comprometimento com a causa evangélica, a pergunta a respeito da influência que é exercida pelo fiel na faculdade, trabalho, família etc é uma das mais cotadas e esperadas quando o dia 31 de dezembro se aproxima. Como complemento desse balanço, há o caderno de alvos que é distribuído para que o fiel planeje o próximo ano em todas as áreas da vida e não são poucos, principalmente os mais jovens, que colocam que desejam ganhar mais almas para Jesus e ser influência na vida das pessoas com quem convivem.
Quanto a ser influência na vida das pessoas, pela fé cristã, não há nada de errado. O Cristianismo, desde sua origem, é chamado a ser influência no mundo, seguindo o exemplo de Jesus Cristo. O problema se dá quando, na ânsia de ser influente na sociedade, esse Cristianismo assume uma postura absolutista, excludente e de dono da verdade.
Não é de hoje que o movimento evangélico tem dificuldade em se colocar na zona de interseção entre influenciar e ser influenciado. Desde os primeiros momentos da Reforma, o discurso de que o lado de cá estava certo e, então, não deveria ouvir e considerar nada que vinha do lado de lá se fez presente, bastando, para isso, lembrar as diversas guerras que houve entre Protestantes de Católicos.
Em tempos recentes, então, essa postura é percebida em seguimentos conservadores dos dois lados, a ponto de haver até um manifesto católico, organizado pelo Centro Dom Bosco, com o título “Protestantes, voltem para casa”, que já tem R$ 14.815,00 levantados por 118 apoiadores.
Assim, podemos perceber que as duas situações, seja a do movimento evangélico que pergunta a respeito da quantidade de almas ganhadas e a cobrança para que seja influência na sociedade, seja a de católicos extremistas pedindo que os Protestantes retornem para a casa, refletem a mesma postura, ou seja, a de se considerarem como donos da verdade e responsáveis por converter a todos que não pensam da mesma forma.
Essas posturas nascem devido à dificuldade que o Cristianismo atual tem em se colocar na posição humilde de reconhecer que, como constituído por humanos, ele é naturalmente influencia e influenciado, sendo bom e necessário que seja dessa forma.
Ao se reconhecer assim, o Cristianismo é chamado e impelido ao diálogo com os que pensam diferente dele, a fim de que, por meio dessa relação, cresça e ajude no crescimento dos outros. Isso é válido tanto para as relações pessoais como também para as relações institucionais cristãs e inter-religiosas.
Ou seja, reconhecer-se como não dono da verdade e, por isso mesmo, perceber-se na zona de interseção entre influenciador e influenciado é a base para a promoção de um diálogo ecumênico entre os cristãos, inter-religioso entre as religiões e público com a sociedade.
Somente um Cristianismo que não tenha a postura absolutista e abra mão de sua pretensão de detentor da totalidade da verdade última pode dizer algo que faça sentido para a sociedade de hoje e pode contribuir de maneira efetiva no diálogo ecumênico e inter-religioso. Ao fazer isso, se mostrará efetivamente como uma boa influência para o mundo, sendo reflexo do amor de Deus, que ao longo da história chama a todos e todas para o diálogo, para a abertura ao outro e o acolhimento do diferente.
Isso acontecendo, quem sabe a pergunta de final de ano no movimento evangélico que mencionamos no início desse texto, mude para: “Como foi seu aprendizado e ensino para com os que pensaram diferente de você esse ano?”.

Essa, com certeza, seria uma retrospectiva que valeria a pena ser feita.
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