Um Cristianismo sem relação.

Um Cristianismo sem relação.

Dentre as diversas características que são possíveis perceber no Cristianismo ao longo de sua história, a categoria da relação é uma das mais importantes. Em seu surgimento, uma das primeiras questões com a qual o Cristianismo teve que lidar foi a de estabelecer como se dava a relação entre Deus e Jesus Cristo. Uma vez que na pregação cristã se assumia que Cristo era Deus, entender esse relacionamento era importantíssimo para se evitar uma ideia de que havia dois deuses ao invés de somente um como também afirmava a doutrina cristã.
Resolvido o problema da relação entre o Pai e o Filho, o relacionamento que havia entre o Espírito e as pessoas do Pai e do Filho precisava ser compreendido, pois se esse Espírito era adorado juntamente com os outros dois, então, necessariamente, estaria em relação íntima com eles, participando da mesma divindade  devendo, assim, ser considerado Deus, sem contudo cair em um triteísmo.
Estabelecer essas relações era, assim, fundamental para se pensar a fé cristã em seu nascimento, o que mostra também a importância que essa categoria tem desde a origem do Cristianismo.
No entanto, ao longo de sua história, embora o Cristianismo se mantivesse firme em assumir e proclamar o dogma trinitário e justificar a relação pericorética que havia entre Pai, Filho e Espírito, a categoria da relação não se mostrou basilar ao lidar com outras questões que fugiam de uma análise meramente dogmática. Basta se lembrar da Idade Média e das enormes perseguições que houve àqueles que pensavam de forma diferente ou da dificuldade, dentro da Idade Moderna, em lidar com as descobertas feitas pela ciência, considerando-as como algo totalmente contrário à Palavra de Deus.
Da mesma forma, em dias atuais, crescem-se dentro do Cristianismo diversos movimentos que não têm se preocupado em estabelecer relações com tudo aquilo que lhe parece estranho. São diversas as tentativas de isolamento por parte desses grupos que, possuindo uma ideia de “fuga do mundo” pregam um evangelho combativo e que não se relaciona com as realidades da ciência, da cultura e da arte. Os últimos acontecimentos contra algumas exposições no país deixam muito claras essas características.
Nessa perspectiva, para esses movimentos, não há relação com aquilo ou aquele que diz algo diferente e não se enquadra na interpretação que fazem do texto bíblico, não há abertura para aprender com o que vem de fora, não são permitidas vozes destoantes, mas todos devem emitir e ter as mesmas opiniões morais, sociais e culturais, uma vez que há uma forma única de se expor a verdade.
Um dos problemas dessa vertente é que ela ignora que o próprio Deus, de acordo com a doutrina cristã, é relação aberta para o mundo, uma vez que, sendo amor, é próprio dele ir além de si e se exteriorizar. Um Cristianismo que prega um Deus que não se relaciona com o que é diferente Dele não entendeu a proposta cristã e não compreendeu o que o dogma trinitário desejava passar a respeito de quem Deus é.
Dessa forma, compreender a respeito da Trindade é fundamental para que o Cristianismo não tenha medo de se abrir para o diálogo e a relação com o mundo, a ciência, a cultura e a arte. Antes, esteja disposto a ouvir os questionamentos, críticas e ensinamentos que surgem a partir dessas relações e, humildemente, aprender com elas, mostrando, por meio disso, que Deus se importa com a humanidade, a ama e deseja se relacionar com ela.
Ao fazer isso, o Cristianismo terá entendido que, à luz da Trindade, os sussurros da voz do amor sempre serão mais altos que os gritos dogmáticos.

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