O testemunho cristão: será que o proclamamos hoje?

O testemunho cristão: será que o proclamamos hoje?

O Cristianismo, desde suas origens, sempre trouxe a categoria do testemunho como algo importante e, até mesmo, basilar para si.  A pregação de Pedro, relatada em Atos 2 deixa isso muito claro, quando testemunha a respeito de Jesus dizendo: “Jesus o Nazareno, varão a quem Deus acreditou junto a vós com poderes, prodígios e sinais, que Deus fez por meio dele entre vós, como vós mesmos sabeis; sendo este entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos; ao qual Deus ressuscitou, desatando os laços da morte; porque não era possível que fosse por ela retido”. Atos 2:22-24. Também em Atos 10, quando na casa de Cornélio diz: “Vós sabeis o que sucedeu por toda a Judéia, começando desde a Galiléia, depois do batismo que pregou João, como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e poder, o qual andou por toda a parte, fazendo o bem e sarando a todos os oprimidos do Diabo, porque Deus era com ele; e nós somos testemunhas de tudo o que se fez na terra dos judeus e em Jerusalém; ao qual também tiraram a vida, pendurando-o em um madeiro. A este ressuscitou Deus ao terceiro dia, e concedeu que fosse ele manifesto, não a todo o povo, mas às testemunhas que Deus tinha antes escolhido, a nós que comemos e bebemos com ele, depois que ressurgiu dentre os mortos; e nos mandou pregar ao povo e testificar que ele é o que por Deus tem sido constituído juiz de vivos e mortos. A ele todos os profetas dão testemunho de que, por meio de seu nome, todo o que nele crê, recebe remissão de pecados. Atos 10:37-43.
Tendo em mente esses dois textos e todo o contexto do Novo Testamento, podemos sustentar que a pregação cristã é aquela que reafirma, também ancorada nas próprias experiências de fé, essa experiência dos primeiros apóstolos da qual Pedro dá testemunho nessas duas ocasiões.
Dessa forma, pensar sobre a categoria do testemunho se mostra de extrema importância, caso se queira dizer o Cristianismo em tempos atuais, nos quais surgem diversos discursos se dizendo cristãos, mas que, sob o crivo da categoria do testemunho, se revelam falaciosos. Assim, é importante ressaltar dois sentidos possíveis para esse termo.
O primeiro, talvez mais conhecido, é o de caráter jurídico. De acordo com o dicionário Michaelis, a testemunha, nesse campo, é aquela que “atesta a veracidade de um ato ou presta esclarecimentos a respeito de determinados acontecimentos, confirmando-os ou negando-os”. Com relação à pregação apostólica, ela se encaixaria nessa modalidade, uma vez que os apóstolos foram testemunhas visuais de Jesus e podiam, dessa forma, confirmar, negar e dar esclarecimentos a respeito dos atos e falas dele. Nesse sentido, o testemunho deles, serve como atestação de que Jesus, como diz Pedro, andou fazendo o bem por toda parte e, por isso, sua morte foi a morte de um inocente. O testemunho dos apóstolos, assim, serve de condenação aos que condenaram Jesus à morte.
O segundo sentido, por sua vez, tem a ver com o modo de viver ancorado na experiência com o Ressuscitado feito por cada pessoa que se encontra com Ele. Esse tipo de testemunho tem um ponto de visão diferente do primeiro, uma vez que não há a possibilidade de voltar ao tempo e, assim como os apóstolos, conviver com Jesus e ver os seus atos para testemunhar, como João, a respeito daquele que “ouvimos com nossos próprios ouvidos, vimos com nossos próprios olhos, contemplamos e tocamos com nossas próprias mãos” (1 Jo 1:1).
Agora, esse testemunho tem a ver mais com a imitação do que com a atestação, mesmo que essa imitação tenha como seu ponto de partida a fé na atestação feita pelos primeiros apóstolos, de maneira que os dois sentidos se tornam complementares entre si. Dessa forma, dar testemunho de Cristo hoje implica em viver uma vida que reflete aquela que foi vivida por Jesus, o que nos move a, necessariamente, tomar sobre si a causa dos marginalizados e excluídos da sociedade, lutar em favor da justiça, lutar pela promoção da libertação dos oprimidos e dos escravizados de nossos dias, denunciando tudo e todos que servem como instrumentos diabólicos para esses fins.
Sob essa perspectiva é possível dizer, por exemplo, que aqueles que apoiaram a portaria que dificulta o combate ao trabalho escravo no Brasil não dão testemunho de Cristo, sendo, antes, agentes das forças satânicas de morte. Da mesma forma, sob essa ótica, se pode dizer que os que promovem a caça aos homossexuais no país também não agem tendo o testemunho de Cristo como modelo, uma vez que Jesus, vivendo em nossos dias, jamais proporia extermino de homossexuais ou assinaria portarias que dificultam a retirada de pessoas das condições de escravidão.
O Cristianismo precisa sempre se lembrar de que a sua fé se ancora na ressurreição de Jesus, o inocente crucificado por iníquos e abandonado por Deus para fazer dessa lembrança seu motivo de atuação no mundo e seu posicionamento espiritual e político ao lado dos abandonados, escravizados e famintos da atualidade.
Fazer isso é dar testemunho de que aquilo que foi atestado pelos apóstolos, uma vez experimentado, continua verdadeiro e digno de proclamação.

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