Estrangeiro em terra estranha

Estrangeiro em terra estranha

A imagem do estrangeiro em terra estranha é algo comum no texto bíblico e somente aquele que passou por essa experiência consegue entender o real significado de passagens como essa.
O texto bíblico, diversas vezes, fala sobre essa temática. No Antigo Testamento, a tônica para o bom tratamento do estrangeiro se dava por meio da lembrança. O povo de Israel deveria tratar bem aos que não eram de sua terra porque lembrava que haviam sido estrangeiros no Egito e sofrido na mão do Faraó e de seu povo. Assim, Deus instruía ao povo para que tratassem bem àqueles que, porventura, chegassem à comunidade de Israel.
Paulo, por sua vez, trazendo isso para o cristianismo, no Novo Testamento, nos lembra que devemos também nos ver como estrangeiros em uma terra que não é a nossa. No entanto, não é mais o caráter da lembrança que está em voga nessa temática, antes, o caráter da esperança. É por termos esperança de que o Reino de Deus virá que devemos nos ver como alguém que não pertence a esse mundo e que estamos a ansiar a vinda desse reino.
Duas questões se mostram extremamente interessantes quando analisamos a questão do estrangeiro nesses dois momentos.
A primeira é perceber que, com a vinda da modernidade e os diversos nacionalismos, isto é constantemente negligenciado por parte de diversos países que se dizem cristãos. A ideia nacionalista, de que pertenço a determinado país e tudo aquilo que é de fora tem que ser rejeitado é algo que tem crescido grandemente em tempos atuais. Exemplos como a Inglaterra e sua saída da União Europeia e a proposta de Donald Trump nas eleições dos Estados Unidos trazem a mensagem bem clara de que o estrangeiro não deve ser aceito no meio do povo, antes, excluído. A cada país, unicamente seu povo. Assim, o estrangeiro, que segundo a tradição judaica da qual se origina o cristianismo, deveria ser acolhido, é, em grande parte dos países do primeiro mundo e cristãos, totalmente rejeitado e posto à margem da sociedade.
A segunda, reflexo da primeira, se dá no campo pastoral. Diversos são os cristãos que, tomando a fala de Paulo, começam a ter a atitude de não se importar com o mundo por não pertencer a ele. São esses os que, na maioria das vezes, ao invés de se envolver com o mundo, se retiram dele. Não dificilmente, a Igreja se mostra como a grande responsável por essa “retirada” do mundo com seus diversos retiros de carnaval, páscoa, semana santa, e tantos outros que existem no Brasil. Deu um feriado prolongado, porque não pensar em retiro, uma vez que a cidade estará uma bagunça e a carne é fraca?
Esse tipo de pensamento, comum em muitos cristãos, sejam católicos ou protestantes, também revela um outro ponto do não entendimento do conceito de estrangeiro relatado no texto bíblico.
Nos dois casos está latente a ideia do estrangeiro como aquele que não se mistura. Seja no primeiro caso em que determinado país não o aceita, seja no segundo caso, em que eu não aceito o lugar que estou, estamos falando de segregação. Os “bons” de um lado e os “maus” de outro.
A ideia bíblica, no entanto, é o contrário disso. Seja no plano físico, seja no plano transcendental, o estrangeiro deve ser aquele que é contado e se conta como um do povo no qual está.
Diante disso, os diversos cristãos que pensam e defendem extremamente a ideia nacionalista, deveriam rever se realmente entenderam a proposta do evangelho e do Deus revelado no texto bíblico. Da mesma forma, aqueles que se julgam “não pertencentes ao mundo” e, por isso, não se envolvem e não lutam contra a injustiça e miséria que assola o povo mais pobre da nossa sociedade, também deveria pensar se, realmente entenderam a ideia cristã do “não pertencimento” a esse mundo.
Se essas duas questões ficassem claras para nós, a luta contra a miséria e contra a injustiça se tornaria muito mais efetiva, uma vez que entenderíamos que esse “não pertencimento” quer dizer luta pelos mais fracos e sustento àqueles que nada possuem, e também quer dizer acolhimento ao diferente e sympathia (do grego, sofrer junto) para com todo aquele que chega aonde estou.

Com isso em mente, será que somos os estrangeiros que a proposta cristã clama que sejamos, e será que temos tratado nossos estrangeiros da maneira que a proposta bíblica nos admoesta?

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