Sobre a superstição da alegria

Sobre a superstição da alegria

Nós cristãos, na maioria das vezes, vivemos em certo paradoxo: ao mesmo tempo em que pregamos que, por meio de Cristo, temos uma nova vida plena e cheia de liberdade e real felicidade, ao mesmo tempo, não dificilmente, tememos a felicidade por vê-la como prenúncio de algo ruim. Por diversas vezes, pensamos: “mas, e todos aqueles que sofrem por causa do evangelho? Se não sou um deles, então não posso me sentir feliz e devo esperar que, brevemente, Deus mandará algo para provar minha fé e confiança Nele”. Pensamentos assim não são difíceis de se encontrar nas diversas denominações que vemos por aí, surgindo a ideia de que a alegria não passa de um momento passageiro aqui na Terra. Nesse sentido, a ideia da alegria se transforma em mera superstição para quem pensa desse jeito, mesmo que ele não o perceba.
Querendo nós ou não, desde Agostinho, vivemos em um cristianismo que tem como modelo principal a negação do corpo e a negação dos prazeres que as sensações nos proporcionam. Diferentemente da visão bíblica em que a imagem humana de Deus era entendida como comunhão natural de todas as pessoas, trazendo um conceito social da Imagem de Deus (Moltmann), Agostinho pensava que a imagem de Deus em nós se encontrava na alma, de maneira que tem, em sua teologia, grande concentração no mistério de “Deus e a alma”. Em seu pensamento, no caminho para o conhecimento de Deus o homem se aprofunda cada vez mais sobre si mesmo, uma vez que olhando cada vez mais para si, alcançando cada vez a profundidade de sua alma, encontra a presença de Deus. Uma vez que tudo o que vem dos sentidos pode estar fundado sobre um engano desses sentidos sobre mim, o melhor que devo fazer para encontrar a Deus é voltar-se para mim mesmo.
Não é difícil perceber a grande influência que o pensamento de Agostinho teve sobre a mística Ocidental e seu caminho de “ascensão à Deus” como desenvolvido por diversos místicos como Teresa D´Ávila, Thomas Merton, Eckart, dentre outros místicos desse período, bem como sobre toda a teologia protestante, a começar por Lutero que era agostiniano. Embora as teses de Agostinho sejam extremamente valiosas para o desenvolvimento do cristianismo ocidental, não podemos deixar de apontar que a depreciação do corpo e o incentivo à sua mortificação que encontramos na teologia agostiniana também trouxeram questões complicadas para o Ocidente, tais como a que começamos esse texto.
Ao pensarmos que a vontade de Deus para nós seja o martírio, o sofrimento e a dor para o aperfeiçoamento de nossa alma, tendemos a esquecer a real consequência do sacrifício de Cristo que “nos transportou para o Reino do Filho do seu amor” (Cl 1,13), de maneira que somos livres para nos alegrarmos e vivermos em alegria.
Dessa forma, a alegria não deve ser condenada ou temida como um momento anterior à tribulação, mas deve ser vista como uma das características do Espírito sobre o qual nos movemos e existimos. Quando entendemos isso, o paradoxo do início do texto é mudado, passando a ser: “uma vez que fomos ressuscitados com Cristo, vivemos em alegria e paz, mas sofremos por ansiar que o Reino de Deus venha e se faça presente em sua plenitude. Enquanto aguardamos, em nossa alegria sofremos com o mundo e, com ela, contagiamos àqueles que estão perto de nós, mostrando que a dívida que havia contra a humanidade foi cancelada (Cl 2,14). Nossa alegria, por estar ancorada sobre aquele que “tem pensamentos de paz, e não de mal” para nossas vidas (Jr 29,11).
Com isso em mente, precisamos sempre nos lembrar que o evangelho é um convite à alegria que leva ao sofrimento e engajamento diante da tristeza do mundo para sua transformação e restauração, e não uma tristeza no mundo que visa uma alegria eterna no além. Entender isso é o primeiro passo para a luta cristã contra todo tipo de opressão que, em nome do evangelho, destrói vidas em nosso dia-a-dia.
O convite de Filipenses 4 persiste em chamar: “Alegrai-vos sempre nos Senhor. Outra vez vos digo: “alegrai-vos!”

Fabrício Veliq
Da série dos textos escritos para o portal Dom Total. Link: http://domtotal.com/noticia.php?notId=1039507
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