Era um daqueles que queria ser poeta

Era um daqueles que queria ser poeta

Era um daqueles que queria ser poeta a todo custo.

Sempre lia Drummond, Adélia Prado, Cora Coralina e ficava imaginando como seria poder fazer versos tão bonitos e tão compassados.

Mas o que mais lhe chamava a atenção eram aqueles poemas que não pareciam poemas. Pareciam simples frases jogadas na folha de papel. Não tinha métrica nenhuma, não seguia nenhum esquema proposto de rima, mas eram muito bonitos de se ler e de uma profundidade enorme.

Depois de tentar de todo jeito fazer por conta própria, e não conseguindo, entrou na escola de poesia.

Lá aprendeu a técnica e agora compunha qualquer poema sobre qualquer assunto que quisesse. Era quase um repentista na arte da escrita. Se falassem com ele: “casa”, já começava um poema:
“casa, que de pequena se faz bela,
 esconde em si vários segredos
 que, de vez em quando,
 saem pela janela”.

E assim, escreveu vários. Era sempre convidado para escrever nas formaturas, nos e-mails apaixonados, nos textos de despedidas, em todo lugar que precisava de frases e versos bonitos, lá ele estava.

Porém, mesmo escrevendo tanto, olhava para os escritos e não via a mesma beleza que dos autores que tanto admirava. Não entendia o porquê, afinal havia adquirido a técnica da escrita de poemas, tinha um bom vocabulário, sabia métrica, rimas, etc.

Certo dia foi visitar a avó que morava perto de sua casa. Ao chegar, a viu com um pequeno caderno no qual escrevia diversas coisas. Ao ler, lembrou de toda poesia que tanto admirava nos diversos autores e, espantado, pergunta para sua avó como ela podia escrever tanta coisa tão bonita sem nunca ter estudado sobre a arte dos poemas.

Ela, em tom sereno, responde: “sabe, há alguns títulos que a academia não nos dá. É dado pelos outros a nós. Poeta é um deles. Não se estuda para ser um poeta. Podemos aprender a escrever poemas, mas nem todo que escreve poema é poeta. Poeta, entendo eu, é todo aquele que, através de seus escritos, revela e toca a vida daquele que o lê, e isso não tem escola que possa ensinar.”

Ao ouvir isso passou a refletir sobre o que escrevia e percebeu que eram somente rimas com coisas vazias e sem significado para ele. Releu seus poetas preferidos e percebeu que esses poetas falavam de si, de suas aflições, de seus temores.

Decidiu escrever sob esse novo prisma. Tornou-se sensível ao que acontecia ao seu redor, ao que sentia frente ao mundo e as situações que lhe advinham.

Porém, por muito tempo não foi chamado a escrever nada e, para ele, isso já não fazia tanta diferença assim.

Com o tempo passou a gostar daquilo que escrevia, vendo em seus escritos um espelho de si e de suas emoções.

Foi assim que cursou sua faculdade de agronomia.

Foi assim que, depois de uma longa caminhada, foi titulado como poeta.

Fabrício Veliq
11.01.2014 – 16:37

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