Mostra-nos o Pai e isso basta

Mostra-nos o Pai e isso basta

“Disse Felipe: Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta. Respondeu-lhe Jesus: há tanto tempo estou convosco, e ainda não me conheces, Felipe? Quem me viu a mim, viu o Pai; como dizes tu: mostra-nos o Pai? Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, é quem faz as suas obras. Crede-me  que eu estou no Pai e que o Pai está em mim. Crede, pelo menos, por causa das mesmas obras”. João 14: 8-11
Esse texto sempre me chamou muita atenção e é um dos meus preferidos de toda a Escritura. Tenho refletido sobre ele nesses últimos dias e resolvi compartilhar com os leitores um pouco de minhas reflexões.
Algo que me chama muita atenção nesse texto é a resposta de Jesus. Imagino a feição de Jesus ao responder a Felipe, algo como: Poxa vida, Felipe, você está comigo já há quase três anos e ainda não entendeu o que venho falando com você constantemente? Como assim, mostra-nos o Pai? Poxa vida…
Antes de sair tacando pedras no Felipe, pensemos sobre o contexto em que ele vivia. Felipe era um judeu e, como judeu, tinha uma visão bem estabelecida para si de como seria o Pai. Havia sido criado tendo o Pai como o Senhor onipotente, o criador dos céus e da Terra, aquele que fala e os montes estremecem; estava dentro de uma cultura que não esperava que Deus se fizesse humano, um Deus que tinha muito clara a separação entre puro e impuro, que não se misturava com os pecadores, etc. Dessa forma, nada de estranho pedir a Jesus para mostrar o Pai, aquele que Jesus tanto pregava sobre Ele e que todos os judeus conheciam seus feitos maravilhosos desde o Egito. O pedido era normal. Era até digno de exaltação, uma vez que ver o Pai já bastava e nada mais era necessário. Dar a entender que Felipe já tinha em sua cabeça como seria o Pai, como falaria, de que forma se dirigiria a Israel e salvaria do poderio romano da época. 
Seria de uma forma totalmente diferente daquela que aparecia em Jesus.
Penso que, muitas vezes, somos assim também e, se formos atirar pedras no Felipe, comecemos tacando em nós mesmos. Quantas vezes temos nossa visão pré-estabelecida a respeito de Deus, a respeito dos outros, a respeito das situações? Quantas vezes, assim como Felipe, criamos esse pré-conceito de como seria Deus, levando-nos a considerar que só pode ser Deus agindo se for da forma que estamos acostumados a ver e ouvi-lo de acordo com o que fomos ensinados, nos tornando cegos e surdos ante os diversos sinais que chegam até nós?
A resposta de Jesus nos remete a um novo ponto. “Não crês que estou no Pai, e que o Pai está em mim? (…) Crede-me que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim; crede ao menos por causa das mesmas obras.” Penso que a resposta nos convida a um ponto mais profundo de conhecimento de Deus. Ao propor que Felipe cresse por causa das mesmas obras, pressupõe que é necessário que Felipe conhecesse as obras de Deus. Mas, não conhecia Felipe as obras de Deus como colocamos mais acima, visto ser um judeu e ter ouvido desde pequeno as narrativas da ação de Deus em favor de seu povo? Como não conseguia enxergar as mesmas obras em Jesus?
Aí talvez esteja o ponto mais crucial que penso: a distância entre o saber e o enxergar. É muito comum sabermos que Deus é amor, que Deus salva, liberta, transforma, etc. Sabemos disso e, como cristãos, não temos a menor dúvida que Deus faz tudo isso, contudo enxergar que essa salvação divina pode vir de diversas maneiras, que a libertação de Deus pode ser, diversas vezes, aquilo que não estamos acostumados exige de nós outro tipo de atitude, ou seja, uma atitude de humildade frente à ação de Deus no mundo em favor dos homens.
Estaria Felipe preso em seus pré-conceitos, preso às formas, aos estereótipos da ação de Deus e, talvez por isso, a dificuldade em ver Deus em Jesus? Aquilo que Felipe tanto almejava ver a ponto de dizer que “isso somente nos basta” estava ao seu lado, conversando com ele sem ele perceber. Não estaríamos, muitas vezes, na mesma situação? Querendo tanto alguma coisa a ponto de não perceber que ela está diante de nossos olhos, necessitando deixar os estereótipos e pré-conceitos de lado e abrirmos nossos olhos para enxergar?
Outra fala de Jesus foi: “crede, ao menos, por causa das mesmas obras”.
Gosto de pensar que nossos olhos não mentem. Aquilo que é visto não tem como falar que não foi visto.  Assim, são excelentes indicadores para os homens. O comportamento, quando visto, é revelador da alma ou, como diria Lao-Tsé: “a alma não tem segredos que o comportamento não revele”. Jesus, em sua fala, convida Felipe a atentar para as mesmas obras e, a partir da conclusão de que as obras eram as mesmas obras do Pai, mesmo da forma que Felipe não esperava, percebesse que já estava diante do Pai, tornando seu pedido sem sentido nenhum. E isso que talvez o olhar atento nos faz perceber: que algumas perguntas e questões, simplesmente, perdem seu sentido, visto a profundidade da questão se revelar diante de nossos olhos, ao estarmos atentos.
Penso que esse texto é um excelente convite de Jesus. Um convite ao olhar atento, ao fugir dos estereótipos, enfim, um convite à percepção do essencial naquilo que se mostra.
Talvez a encarnação seja, justamente, esse convite à fuga dos estereótipos que marcam tanto a vida humana: afinal, é um amor tão grande que se faz pequeno igual àquele que se ama, obtém tudo através da entrega incondicional, e salva através daquilo que era o fim de todo que não tinha salvação nenhuma.
Tudo diferente daquilo que se esperava que fosse. E por isso, belo, mistério, divino.
Fabrício Veliq

08.10.2013 – 15:33
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