A espera do sobrinho: algo sobre certezas

A espera do sobrinho: algo sobre certezas

Certa vez conheci um senhor. Ele estava sentado debaixo de uma árvore esperando seu sobrinho. Era o por do sol e, por ter andado muito naquele dia, resolvi parar e sentar no mesmo banco que aquele senhor estava e descansar um pouco.
O senhor tinha um semblante calmo e sereno, um daqueles semblantes que encontramos entre as pessoas sábias. Começamos a conversar a respeito do tempo e da bela paisagem que havia se formado no horizonte naquela tarde. Depois, falou-me a respeito da espera do sobrinho, contou-me que o esperava havia 20 minutos e estava quase indo embora visto ele não ter chegado ainda.
Perguntei se ele havia marcado e se o sobrinho havia dado certeza que viria. Ao ouvir a palavra certeza, percebi que um pequeno sorriso estampou no rosto daquele senhor. Ele então me disse algo que sempre lembro quando ouço essa palavra. Suas falas foram:
“Sabe jovem, houve uma época em que eu buscava certezas em tudo que fazia.
Houve um tempo em que comecei a trabalhar em uma empresa de sapatos, porque tinha certeza que era o melhor emprego que poderia ter naquele momento, no entanto, percebi que o sapateiro ao lado da empresa tinha uma vida muito mais satisfatória que a minha consertando seus 10 sapatos por dia. Minha certeza a respeito do emprego foi se esvaindo.
Passado algum tempo, comecei a namorar uma menina, porque tinha certeza que era a pessoa certa. Ela trabalhava em uma boa empresa, tinha uma boa família, parecia demais comigo, gostava das mesmas músicas, programas, etc. Por tudo isso, tinha certeza. Pouco tempo depois, ela se desencantou por mim e pediu para que terminássemos o namoro, fazendo-me perceber que a certeza que tinha não era garantia de que daria certo aquilo que almejava.
Por fim resolvi fazer uma faculdade. Tinha certeza em minha mente de que queria ser biólogo. Afinal, sempre fui bom nas aulas do ensino médio e sempre tirava boas notas nas minhas provas dessa matéria, mesmo sem estudar tanto assim para elas. Começando o curso, percebi que não tinha muita coisa a ver com aquilo que pensava que seria. As aulas de anatomia não eram tão legais como achava que essa matéria era, as matérias não era tão fáceis como eu supunha baseado em meu ensino médio, o curso não me apetecia tanto a partir do 2º período e com isso, minha certeza do curso se foi.
Com essas simples experiências percebi que era ilusão procurar certezas nas coisas e nas escolhas que fazia. Todas as certezas que tinha antes de tomar as decisões se mostraram, posteriormente, errôneas. Decidi, então, dar um pouco mais de crédito aos meus olhos. Ouvi certa vez de um professor que nossos olhos não nos enganam e passei a atentar para isso e dar maior crédito ao que eles me mostravam. Percebi que meu professor estava certo. Podemos tentar enganar a nós mesmos dizendo que nossos olhos viram aquilo que gostaríamos de ver, contudo ser sinceros conosco implica em assumir o que os olhos viram, mesmo que não seja o que desejávamos ou idealizávamos.
Decidi agir com coragem. Mas não essa coragem que vemos nos filmes, que entra sem medo em tudo e não está nem aí para o que pode acontecer. Falo, meu jovem, da coragem em sua origem etimológica: aquilo que vem do coração. Decidi ouvi-lo mais, sentir mais e descobri que, em algumas questões, ele é o melhor guia para nossas decisões.
Desde então, parei de procurar certezas. Hoje, observo os indícios, vejo com olhar atento e enfrento meus medos com coragem.
Com diversas incertezas e vivendo com coragem, casei-me, criei meus filhos, formei em história, trabalhei em uma escola, decidi me aposentar,  e hoje espero meu sobrinho, que por sinal, acaba de me mandar uma mensagem dizendo para esperar um pouco mais. Ele estava agarrado no trânsito.”
Depois daquele dia e dessa conversa, toda vez que ouço alguém me falando que tem certeza de algo gera em mim certo medo, pois tenho para mim que vivemos em um mundo de incertezas, desafios e constantes saltos em um escuro onde tudo o que possuímos é a esperança, sendo a certeza somente aquele assumir de que nada diferente pode acontecer a partir dali.
Fabrício Veliq

10.09.13 – 07:22
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