sobre os castelos de areia

sobre os castelos de areia

Certo dia, ouvi que a vantagem de se morar em um castelo de areia é poder ver a praia. Coloquei-me a pensar sobre isso.
Em primeiro lugar, penso que podemos criar um castelo de areia onde quisermos, bastando para isso somente termos areia para fazer. Contudo geralmente a fundação do castelo de areia é a própria areia da praia.
Suponhamos, no entanto, que alguém deseje construir um castelo de areia próximo à praia, não necessariamente na praia. Nossa própria experiência nos mostra que tal empreendimento não terá muito sucesso e o que costuma acontecer é criar um reduto de areia, para, nesse reduto de areia, fazer o castelo de areia e dessa forma, em nada muda o fundamento daquilo que é construído sobre a areia e o fundamento da construída fora da areia da praia.
Deixando esse caso de lado, falemos sobre o caso mais comum, ou seja, a construção do castelo de areia sobre a areia da praia. Uma vez se propondo a construir o castelo de areia na praia tendo como vantagem ver a praia, cabe a nós perguntarmos: compensaria, viver em um castelo de areia somente por poder ver a praia?
Penso que a resposta a essa pergunta passa por dois pontos principais: em primeiro lugar, que a mesma visão que encanta é a visão daquilo que se torna nosso maior medo. Para vivermos nesse castelo, precisamos pensar se estamos dispostos a viver em um lugar constantemente ameaçado pelo mar, pelo movimento inesperado das marés, visto termos em nossa sociedade o paradigma de que o mar é imprevisível e repentino. Assim, de uma hora para outra, o mesmo pode começar a se enfurecer e pode chegar até onde está nosso castelo. Podemos também nesse sentido, ao pensar sobre a imprevisibilidade do mar, pensarmos nos tsunamis que chegam sem perceber devido aos movimentos das placas tectônicas que não vemos e não prevemos quando as mesmas ocorrerão, sendo óbvio que caso haja um tsunami o primeiro lugar a ser atingido será a praia.
Assim, conviver com esse medo é uma condição quase inerente a viver em um castelo de areia na praia. E dessa forma, ao ver o mar e suas ondas sempre ficaríamos com medo se essas ondas chegariam até nosso castelo e o destruiria soterrando-nos debaixo de suas ruínas.
O segundo ponto que acredito ser de grande importância é a fundação que um castelo de areia tem. Sabemos, pela experiência de ir à praia, que as ondas, ao passarem pela orla, no seu movimento de ir e vir, ora levam, ora trazem areia, sendo o terreno mudado constantemente. Assim, não nos espantaríamos que um castelo de areia, por mais bonito que seja, uma vez tocado constantemente pelo mar que vem a até ele, teria suas bases minadas e em pouco tempo simplesmente cairia soterrando a todos os que moram dentro dele. Isso aconteceria pelo fato de ser areia e ser próprio da areia essa maleabilidade e inconstância.
Tirando a fundação, poderíamos discorrer sobre aquilo que age sobre o castelo de areia. Claro que a fundação sendo instável já apresenta um grande problema, porém há os que ainda assim acreditam que o castelo pode se sustentar.
Para evitar que a reflexão fique muito grande, cito somente três desses eventos que podem agir sobre o castelo dando uma pequena indicação do que cada um pode fazer ao castelo. Em primeiro lugar, o agir do vento, que pouco a pouco levaria gradativamente fragmentos do castelo, fazendo-o perder partes dele com o tempo, sendo necessária uma constante reconstrução à medida que essas partes vão caindo; em segundo, o constante sol que incidirá sobre o castelo tornando-o mais frágil com o ressecamento da areia e como conseqüência tornando-o facilmente quebrável; em terceiro as possíveis chuvas que haveria de cair com o passar dos dias, fruto do ciclo natural da água, que com suas gotas desfaleceriam o mesmo, podendo até mesmo destruí-lo de acordo com a intensidade da chuva.
Com todas essas considerações, penso que muitas vezes na vida agimos assim. Criamos para nós castelos de areia e decidimos morar neles. Simplesmente nos encantamos com aquilo que é aparente, com aquilo que é agradável aos nossos olhos, com aquilo que queremos, acreditando que o que se mostra e nossa vontade serão suficientes para sustentar o castelo que temos construído.
Ao basear no que simplesmente se mostra empiricamente e na volatilidade da nossa vontade, fundamos pilares que não sustentarão quando as intempéries chegarem ao longo da vida.
Vivendo dessa forma, tendemos a nos cansar sempre recuperando as partes caídas do castelo que construímos e que foram afetadas pelas intempéries, tendemos a viver uma vida de constante temor frente ao mar que ameaça chegar até nós, sendo questão de tempo sua chegada, convivendo sempre com o conflito de que a praia ao nosso dispor, a qual era nossa motivação para a construção do castelo, contem tudo aquilo que não queremos que chegue até onde estamos.
Tal construtor se mostra insensato na parábola que Jesus fala logo após o sermão do monte, como alguém que não avaliou o local onde se construía, tendo sido grande a queda de sua casa como relatado no livro de Mateus 7: 26-27
Assim penso que devemos atentar sobre o fundamento que temos construído nossos castelos, bem como de que material é o nosso castelo. Se percebermos que o mesmo é de areia, ou se percebermos estar fundado na areia, e no pior dos casos, sendo de areia e fundado sobre a areia, não temamos em mudar, sabendo que há materiais melhores e lugares melhores para se construir algo que será duradouro, sendo a praia um divertimento e não mais nosso maior temor e muito menos nossa única motivação para o viver nesse castelo que tende a cair.
 “E aquele que ouve estas minhas palavras, e não as cumpre, compará-lo-ei ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia; e desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e caiu, e foi grande a sua queda”
Fabrício Veliq
09.05.2012 – 10:24
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